2 de setembro de 2007

A formação do brasileiro moderno

Sérgio Buarque de Holanda (nascido em São Paulo em 11 de julho de 1902 e falecido também em São Paulo em 24 de abril de 1982) foi um dos mais importantes historiadores brasileiros. Foi também crítico literário e jornalista. É dele um dos livros considerados como dos mais importantes no sentido de retratar a alma do brasileiro: “Raízes do Brasil”.

Publicado pela primeira vez em 1936, Raízes do Brasil aborda aspectos centrais da história da cultura brasileira. Nele, Sérgio Buarque de Holanda interpreta a formação da sociedade brasileira, destacando, sobretudo, a importância do legado cultural da colonização portuguesa do Brasil. Também enfatiza, todavia, as transformações que marcaram tal legado no decurso do século XIX.

Na postagem anterior, expus algumas características da formação do sistema de dominação pessoal que ainda hoje existe em muitos dos recônditos do Brasil – e não apenas na região Nordeste, como é de se esperar. Dando seqüência a esta abordagem história do Brasil, apresento abaixo um breve resumo do capítulo seis da obra Raízes do Brasil, intitulado “Novos tempos”.

O autor inicia o capítulo afirmando que, ao mesmo tempo em que o brasileiro é um ser “social”, no sentido do “homem cordial”, ele tenta se distinguir dos demais. A forma de um brasileiro se distinguir dos demais é através da realização de atividades vistosas e “importantes”, ou seja, os brasileiros não gostam de atividades monótonas, repetitivas, cansativas; não gostam de atividades nas quais não possam “exercer” sua personalidade e, assim, se destacar dos demais.

O trabalho é visto como um local onde o brasileiro pode mostrar sua personalidade; assim, o trabalho é bom não pelo trabalho em si, mas pela oportunidade que dá ao brasileiro para que este se mostre. Assim, o brasileiro procura sempre “melhorar de vida”, exercendo cargos cada vez mais altos.

Tendo estas características em vista -- o brasileiro quer sempre “se exibir” e o trabalho é um local para esta exibição --, não é estranha a grande quantidade de cursos de direito, onde os indivíduos tornam-se bacharéis -- sinônimo de status na sociedade.

O brasileiro dá destaque à personalidade individual como valor próprio, superior às contingências. Isto significa dizer que a personalidade do indivíduo é algo mais importante do que as próprias condições na qual o indivíduo se encontra -- ou seja, se ele é um bom advogado (bacharel), é porque ele tem, antes de tudo, uma personalidade forte, tem condições de ser bacharel.

Dá-se grande importância a elementos que demonstrem o nível cultural das pessoas. Assim, o prestígio da palavra escrita, da frase lapidar, o horror ao vago, ao hesitante têm determinado assiduamente nossa formação.

Levando-se em consideração estas características, entende-se o porquê do positivismo -- com suas idéias de racionalidade e perfeição -- ter obtido sucesso no Brasil: o brasileiro quer sempre “se exibir”; o trabalho é um local para esta exibição; a personalidade dos indivíduos é o que conta; deve-se passar, pelo menos, a impressão de ser culto. Somam-se a isto tudo a racionalidade e o pensamento lógico do positivismo.

Mesmo com este “ambiente propício” ao positivismo, este não foi utilizado de maneira correta pelos brasileiros: ao invés de trabalharem em sentido construtivo, não conseguiram -- ou não quiseram -- lutar contra os políticos já estabelecidos no cenário político brasileiro. Além disso, tinha-se a impressão de que a política brasileira era uma coisa tão “pequena” que não havia importância em estudá-la e trabalhá-la.

O liberalismo implantado no Brasil foi um liberalismo que se adaptou à realidade brasileira -- e não era o “verdadeiro” liberalismo, conforme aplicado na Europa. Só assimilamos efetivamente estes princípios do liberalismo até onde coincidiram com a negação pura e simples de uma autoridade incômoda, confirmando nosso instintivo horror às hierarquias e permitindo tratar com familiaridade os governantes. A democracia foi transformada de modo a acomodar os interesses e privilégios da aristocracia rural existente.

Os movimentos reformadores foram feitos de cima para baixo: a população apenas assistia passivamente. Não havia participação popular nestas reformas, e as mesmas não eram originárias do povo -- pois este sabia que, independentemente do regime em curso, continuaria à parte de toda e qualquer participação política.

O primeiro abalo no poder dos aristocratas rurais deu-se com a chegada da família real portuguesa em 1808. Este fato não alterou a influência dos grandes senhores agrários, mas trouxe um novo leque de oportunidades para as pessoas. É nesta época que se inicia o distanciamento entre o elemento “consciente” e a massa brasileira.

A elite passa a criar um “mundo” só para si; não quer admitir a realidade, pois ela não quer sacrificar sua personalidade no contato de coisas mesquinhas e desprezíveis; deve-se esquecer dos fatos prosaicos que fazem a verdadeira trama da existência diária, para nos dedicarmos a motivos mais nobres: palavra escrita, retórica, gramática.

A antiga “nobreza” de senhores agrários passa a ceder seu posto a outra nobreza -- citadina, baseada no talento e nas letras. E as pessoas que formavam esta nova nobreza eram pessoas que tinham condições financeiras de estudar sem se preocupar em se sustentar. O saber, portanto, torna-se um instrumento capaz de elevar seu portador acima do comum dos mortais. Contudo, apenas o saber “espontâneo” e “natural” é valorizado; aquele que se esforça para ter conhecimento não é reconhecido, pois este tipo de conhecimento é comparável aos trabalhos menos importantes. E aquele que possui o saber deve expô-lo sempre que possível, em outras palavras, quem possui o saber deve ser “exibido”.

Ao mesmo tempo em que palavras difíceis e estrangeiras são valorizadas, as idéias devem ser expostas da forma mais simples possível para que aqueles que possuem raciocínio preguiçoso possam entender o que está sendo dito.

Alguns pedagogos da prosperidade afirmam que a solução para o desenvolvimento do país está na educação: se os governos tivessem sido previdentes, como o foi o governo dos Estados Unidos, e tivesse investido em educação básica, o Brasil seria a segunda ou terceira potência do mundo. O autor, entretanto, defende a idéia de que são necessárias outras coisas para complementar a formação do indivíduo, e que a educação não seria o único requisito necessário para fazer o país crescer.

Estas características apenas servem para mostrar um desencanto em relação às condições reais do país. O mal social não diminuiu com o tempo; o que diminuiu, talvez, foi apenas nossa sensibilidade aos seus efeitos.

Ao se fazer a propaganda da República, disse-se que o país “andaria com as próprias pernas”, sem depender de ninguém; contudo, esta “ideologia” escondia um fato importante: o Brasil devia entrar em novo rumo, porque se envergonhava de si mesmo. O Brasil deveria receber, portanto, aprovação dos outros, e não da sua própria população.

Os dois partidos brasileiros, durante o Império, representavam muito mais as pessoas e as famílias do que idéias, o que influi diretamente na característica “social” dos brasileiros (citada no início do capítulo).

Referências bibliográficas:

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 26ª ed. Cap. 6.


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