7 de outubro de 2007

As relações da mídia com a política (II)

Danto continuidade à nova série sobre mídia e política, coloco abaixo a segunda parte do resumo do primeiro texto falando sobre as eleições de 1989 para presidente.

AS NOTÍCIAS E AS PESQUISAS
O próprio Roberto Marinho, em uma entrevista ao New York Times, admitiu que estava dando mais visibilidade ao candidato que ele apoiava. Ele fazia isto através da inserção de notícias em seus telejornais com a presença freqüente de Fernando Collor de Melo. Ainda, o candidato aparecia freqüentemente em programas de primeira linha da programação da Rede Globo, como por exemplo no Globo Repórter e no Fantástico. Além disto, a TV Globo anunciava semanalmente o resultado de pesquisas de opinião, influenciando também o eleitorado.

O VENCEDOR ANTECIPADO
As pesquisas de opinião "encomendadas" pela Rede Globo davam Collor como vencedor desde abril. A partir daí, a Globo passou a fazer pesquisas do tipo "Quem será o concorrente de Collor à presidência?", dando a entender que um dos vencedores do primeiro turno já tinha sido determinado. Collor foi publicamente construído como o vencedor.

É claro que as pesquisas diretamente influenciam a decisão do eleitor, pois o mesmo pratica o chamado "voto útil", ou seja, o indivíduo pode não votar no candidato que gosta, caso este não tenha chance, mas irá votar contra aquele que ele não gosta.

MARKETING POLÍTICO
O orçamento para a campanha de Collor foi extremamente alto para os padrões da política brasileira. Sabendo que a corrupção governamental era considerada o grande mal da sociedade brasileira, ele buscou, desde o início da sua carreira de governador, criar a imagem de um homem sério, competente, incorruptível e que "caçava marajás". Para isto, contratou diversas empresas de propaganda, além de consultoria financeira e uma empresa especializada em pesquisas. E estas pesquisas não negavam sua popularidade.

Collor iniciou sua aparição na TV como convidado a participar do programa político gratuito de outro partido. "Repetiu a dose" em 1989, utilizando-se sempre de estratégias de marketing para cooptar a atenção das pessoas, como por exemplo com a utilização intensiva das palavras "caráter", "dignidade", "honra", "coragem" e "justiça". Batia sempre nas teclas da privatização e da eficiência. Sua vantagem nas pesquisas tinha por base: a sua associação com a juventude e com os jovens; a sua coragem e determinação; a luta contra os marajás; o sucesso no governo de Alagoas; e a oposição ao governo federal.

Sua propaganda foi produzida em todos os detalhes, indo desde seus gestos -- os dedos formando um "V" de vitória -- e do seu discurso ("Minha gente"), até às cores e à música. Foram produzidos também outdoors, panfletos, cartazes, etc.

O CENÁRIO DA REPRESENTAÇÃO
Por volta de junho de 1989, o cenário político onde a eleição se daria já estava formado. Novelas, notícias, pesquisas e as estratégias de marketing político foram os "maquinários" desta construção. Nas novelas, os políticos eram vistos de maneira negativa; o Estado foi construído para ser corrupto e ineficiente, e assim por diante.

Vale destacar, porém, que este cenário requeria uma permanente e complexa luta para sua manutenção. O cenário devia ser sempre renovado, recriado, defendido e modificado, para poder atingir seus objetivos. Collor venceu Lula no segundo turno.

CONCLUSÕES
Antes de tudo, por mais que o Brasil tenha uma audiência "ativa", não se deve confundir audiência "ativa" com audiência "crítica". Isto significa dizer que uma idéia geral só pode ser criada dentro dos limites estruturais do processo. Fica claro que as leis brasileiras são fracas no que diz respeito à propaganda eleitoral. Esta, contudo, é de fundamental importância, principalmente para os partidos pequenos.

O último aspecto a salientar é o da democracia. Será que existe mesmo democracia, ao analisarmos que um cenário político é construído pela mídia, especialmente pela televisão? Ainda, vale lembrar que o país é "televisivo", ou seja, a televisão está no centro da sociedade. A grande questão é fazer com que o desejo da maioria prevaleça sobre a “competência” de um cenário político representativo construído pela mídia.

Referências bibliográficas

LIMA, Venicio Artur de. Comunicacion y politica en America Latina: el caso brasileno. Brasilia: Ed Do Autor, 1993.



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