13 de fevereiro de 2008

Formação do estado russo (XII)

(Continuação da postagem anterior.)

Pelo que nos é dito pela literatura especializada e por algumas fontes não analisadas neste trabalho, a invasão fez surgir nos russos um sentimento de pânico que era desconhecido até então. Sem dúvida que guerras por territórios aconteceram antes da invasão mongol; entretanto, pelo que nos é dito pela literatura, não havia acontecido nada antes que se comparasse a esta invasão. O impacto psicológico causado nos russos foi bastante grande, e neste momento específico não havia nenhum estado fortemente centralizado que pudesse responder aos anseios da população por ordem e defesa do território. Coube à cidade de Moscou concentrar todo o poder político e militar objetivando criar o estado russo que pudesse proteger sua população.

(...) O nascente estado russo moderno [século XIV] foi muito mais um produto da sua experiência mongol recente do que do passado kieviano removido geográfica e cronologicamente. É verdade que a Rússia do noroeste [região de Vladimir-Suzdal] sempre se distinguiu da "Horda" e que a centralização moscovita foi realizada não com o encorajamento dos khans, mas contra a vontade dos mesmos. Entretanto, o longo período sob domínio mongol levou a Moscóvia a adotar vários elementos importantes de cultura política e do pensamento mongóis, bem como de suas práticas econômicas e sociais. Tais apropriações incluíram o conceito de que toda a terra pertencia ao líder; a estrutura do conselho boiardo; o sistema de dupla administração, no qual o poder militar e civil regional estava concentrado nas mãos de representantes do centro (...). Todas estas instituições e práticas (...) ajudaram a formar as características básicas da Moscóvia como uma entidade política, social e econômica. (...) O noroeste da antiga Rússia de Kiev emergiu do período de domínio mongol fortalecido e unido, mas também muito diferente daquelas partes (...) que não experimentaram o longo domínio dos khans (PLOKHY, 2006, p. 133-134).

Por meio de uma política bastante hábil, os príncipes moscovitas conseguiram se equilibrar entre as pressões externas vindas dos mongóis e as pressões internas de sua própria população, tanto dos boiardos quanto do povo, que foi extremamente explorado e que, sem dúvida, não obteve nenhum benefício com a suserania mongol. Ao se mostrarem capazes de acomodar os conflitos de interesses entre estas duas partes, os príncipes moscovistas, mais que os príncipes de Novgorod, se mostraram capazes de realizar a tão esperada centralização política em suas mãos e, com o apoio de ambas as partes citadas, fortalecer seu poder político a ponto de dar origem a um estado que fosse capaz, em longo prazo, de acabar com as próprias pressões que lhe deram origem.

O terceiro ponto que nos chama a atenção diz respeito ao sentimento de pertencimento que os russos têm de si mesmos em relação ao seu estado -- ou seja, diz respeito à resposta para a pergunta "o que é ser russo?". Para responder a esta questão seria necessário entrarmos no conceito de nação na Rússia e, ainda que este não seja o nosso objetivo neste trabalho, acreditamos ser interessante fazer breves apontamentos sobre o tema para que possamos, posteriormente, dar continuidade à nossa análise do processo de formação do estado russo.

No caso da Rússia, a definição do sentimento de nação não é tão fácil de ser feita. Vera Tolz (2001, p. 1), por exemplo, afirma que há três maneiras principais de se analisar a construção da identidade russa: a primeira seria a visão de "Rússia versus o Ocidente", presente na intelectualidade russa em praticamente todo o período que vai do século XVI até os dias de hoje; a segunda seria a de se enxergar os russos como criadores e preservadores de uma comunidade multi-étnica única, vista como profundamente diferente dos impérios europeus e asiáticos e que, portanto, poderia servir como "ponte" entre Europa e Ásia -- daí advindo sua importância como nação; e a terceira seria a de tomar os russos como membros de uma comunidade de eslavos do leste, cujas origens remontam à Rússia de Kiev, por volta do século IX. Já Geoffrey Hosking (1997) afirma que a Rússia tem problemas históricos em sua definição de nacionalidade porque seus governantes, em primeiro lugar, se preocuparam em criar um estado imperial para só então, garantidas as fronteiras e a segurança externa do império, pensar em se criar uma sociedade civil e, conseqüentemente, uma nação. Para Hosking, a dificuldade de se definir o conceito de nação na Rússia é dada pelos próprios vocábulos: russkii define aqueles que são etnicamente russos -- nacionalidade étnica --, e rossiiskii são aqueles que faziam parte do império russo -- nacionalidade cívica.(1) Ainda segundo Hosking (1997, p. xix): "(...) a língua russa reflete o fato de que há dois tipos de Russianness,(2) uma conectada com o povo, com a língua e com os principados pré-imperiais, e outro com o território, com o império multinacional, com a grande potência européia".

Por sua vez, temos um interessante relato contemporâneo feito pelo professor Viktor Viktorovich Gorokhov, titular da cadeira de "Cultura Russa" e membro do Conselho Superior do Instituto de Turismo e Hospitalidade da Rússia. Segundo o professor:

Interessante quem eram chamados de "russos" [por volta do século XIV]: não pela origem, nem pelo sangue, nem pelo nome ou pelo sobrenome; se o indivíduo se considerasse russo e, principalmente, se o indivíduo fosse ortodoxo, então seria russo. Era o pertencer à Igreja Ortodoxa que fazia com que o indivíduo fosse considerado "russo" (GOROKHOV, 2006, grifo nosso).

O relato do prof. Gorokhov se relaciona diretamente com o contexto histórico e com as fontes apresentadas anteriormente. Como vimos, durante o período de dominação mongol não havia estado russo propriamente dito; as instituições políticas russas deixaram de existir, de maneira que cada uma das três principais regiões seguiu um caminho de desenvolvimento político próprio. O estado russo como instituição que detém o monopólio legítimo do uso da força física dentro de determinado território, como afirma Weber, só surgiu a partir do final do século XIV. Neste contexto, a única instituição que permaneceu sempre presente desde sua criação foi a Igreja Ortodoxa russa. A Igreja foi a única instituição que, de uma forma ou de outra, se manteve como tal desde 988 -- data da conversão de Vladimir de Kiev ao cristianismo -- até os dias de hoje. O "ser russo" esteve indubitavelmente ligado à Igreja Ortodoxa: "nós" somos ortodoxos e, portanto, russos; "eles" são católicos e, portanto, lituanos ou poloneses; "eles" são muçulmanos e, portanto, membros da Horda de Ouro.

Assim, coube à Igreja Ortodoxa se apresentar como única instituição genuinamente russa, ainda que não se opusesse frontalmente ao domínio mongol. Ao mesmo tempo, a falta de ordem característica dos primeiros anos após a invasão pode ter legitimado o surgimento e o fortalecimento da mentalidade patrimonialista em Moscou. Sem um norte a quem recorrer, cabia à população aceitar o domínio inconteste dos príncipes, que mandavam do jeito que achavam melhor para manter a ordem e, principalmente, manter seu patrimônio, em um processo de submissão por parte da população que apresenta paralelos com o processo apresentado anteriormente e que ocorreu durante o "Tempo das Revoltas" -- a auto-escravização.

A identificação do indivíduo, especialmente durante o período da dominação mongol, era feita diretamente com a Igreja Ortodoxa. Apenas a partir do final do século XIV, com a vitória de Dmitrii Donskoi em Kulikovo, em um processo de formação do estado que durou no mínimo até o início do reinado de Pedro, o Grande, pode-se afirmar que os russos passaram a se identificar como tais tendo em mente o estado russo e não mais a Igreja Ortodoxa -- ainda que esta não tenha perdido em nenhum momento sua importância como símbolo de união da nação russa. Apenas a partir de então é que realmente se consolida territorial e politicamente o estado russo, que viria a se transformar, a partir do século XVIII, em um dos principais atores políticos mundiais até os dias de hoje.

(1) Tal diferença está presente até os dias de hoje e está na base da crescente xenofobia na Rússia.
(2) Tal termo pode ser entendido como "russianidade".

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABDULLAEV, Nabi. “Nostalgia remains strong for Brezhnev era”. In: The Moscow Times. Nº 3562, 15 de dezembro de 2006, pág. 1. Disponível em http://www.themoscowtimes.com/stories/2006/12/15/003.html. Acessado em 15 de dezembro de 2006.

BOBBIO, Norberto. Dicionário de política. 11ª Ed. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1998.

FREEDOM HOUSE. Freedom in the world. The Annual Survey of Political Rights and Civil Liberties Disponível em http://www.freedomhouse.org/modules/mod_call_dsp_country-fiw.cfm?year=2007&country=7044. Acessado em 09 de dezembro de 2007.

GOROKHOV, Viktor Viktorovich. Origem e desenvolvimento da cultura russa. Palestra apresentada no Instituto de Turismo e Hospitalidade em Moscou, Rússia. Data da palestra: 20 de setembro de 2006.

HOSKING, Geoffrey. Russia: People and empire, 1552-1917. Cambridge: Harvard University Press, 1997.

_____. Russia and the Russians: from earliest times do 2001. Londres: Penguin Books, 2002.

KAISER, Daniel H.; MARKER, Gary. Reinterpreting Russian history. Readings 860-1860s. Nova York, Oxford: Oxford University Press, 1994.

LEVADA CENTER. Уровень одобрения деятельности В. Путина на посту президента России [Índice de aprovação das atividades do presidente Vladimir Putin no cargo de presidente da Rússia]. Novembro 2007. Disponível em http://www.levada.ru/prezident.html. Acessado em 09 de dezembro de 2007.

PLOKHY, Serhii. The origins of the Slavic Nations. Premodern identities in Russia, Ukraine and Belarus. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.

RIASANOVSKY, Nicholas V. A history of Russia. 7ª Ed. Nova York, Oxford: Oxford University Press, 2005.

TOLZ, Vera. Russia. Série “Inventing the nation”. Londres: Arnold; Nova York: Oxford University Press, 2001.

WEBER, Max. "Ciência e Política: Duas Vocações." In: GERTH, H. H. & MILLS, C. Wright (orgs.). Ensaios de sociologia. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1982.


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