3 de abril de 2008

Ciência e política, duas vocações (IV)

(Continuação da postagem anterior.)

Na Alemanha, diferentemente da Inglaterra e dos Estados Unidos, vemos um Parlamento impotente, que não tem condições de executar suas tarefas de maneira competente. Além disto, o funcionário de carreira tem na Alemanha uma importância enorme. Só que estes funcionários almejam cargos de ministro, não somente o de funcionários. Por fim, a administração pública foge ao controle das comissões parlamentares.

Complementando, podemos dizer que os partidos têm doutrinas políticas. Esse quadro lega aos políticos profissionais o não aproveitamento de seus talentos e liderança. Os partidos são comandados pelos homens de importância, que não admitem aqueles que tem características de chefe. Instala-se um sistema de representação proporcional, uma manifestação típica de uma democracia sem chefes e que permite as manobras ilícitas dos homens de prol.

Weber diz ainda que aquele que precise viver "da" política não encontrará outra saída senão a do jornalismo e encargos burocráticos nos partidos, ou então tentará conseguir um posto em uma associação que se encarregue da defesa de certos interesses, tais como sindicatos, câmaras de comércio, etc. Ele acha que quem deseje viver "da" política irá ter decepções contínuas, além de ser tachado como "orador assalariado".

Contudo, para aqueles que desejam seguir a carreira política e são bem sucedidos, existem certas alegrias. A primeira delas é o sentimento de poder. A consciência de influir sobre outros seres humanos e de saber que tem nas mãos um importante instrumento modificador da história pode elevar o político profissional acima da banalidade da vida cotidiana.

Existem três qualidades que determinam o homem político: a paixão, o sentimento de responsabilidade e o senso de proporção. A paixão não deve ser entendida como algo sem pensar, e sim como uma vontade muito grande de trabalhar por uma causa mas com consciência e responsabilidade do que se está fazendo. Além disto, é necessário o senso de proporção, para saber manter à distância os homens e as coisas.

É necessário fazer política com a cabeça; contudo, é necessário ter a paixão como fonte e deverá nutrir-se desta paixão. Todavia, o homem político não pode tornar-se vaidoso, pois a vaidade é inimiga de qualquer devoção a uma causa. A vaidade faz com que o homem político coloque-se acima de sua causa, e faz com que ele não tenha sentimento de responsabilidade -- ou então, que perca o objetivo da sua causa. O homem político não pode ser um adorador do poder pelo poder.

Finalmente, iremos analisar a questão da ética juntamente com a política. Existem, em princípio, dois tipos distintos e opostos de ética: a ética da convicção e a ética da responsabilidade. O primeiro tipo baseia-se no fato de que o indivíduo toma suas atitudes e a responsabilidade destas atitudes não está no agente, mas sim no mundo, na tolice das outras pessoas, ou até na vontade de Deus. Já o segundo tipo diz que o agente é responsável pelos seus atos, ou seja, caso o que o agente fizer der errado, o agente será o responsável.

Um aspecto em comum a estes dois estilos de ética é que vemo-nos, com freqüência, compelidos a recorrer a meios desonestos, ou pelo menos perigosos, para atingirmos fins "bons"; por outro lado, somos compelidos a contar com a possibilidade e mesmo a eventualidade de conseqüências desagradáveis.

Este meio desonesto ou perigoso da ética em relação à política é a violência. Por isto, parecer-nos-ia que é o problema da justificação dos meios pelo fim que colocaria em cheque a ética da convicção. Isto pode ser explicado da seguinte maneira: para acabarmos com a violência e instaurarmos a paz, utilizamo-nos de mais violência.

Referências bibliográficas:

WEBER, Max. "A política como vocação". In: _____. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 1993. Pág. 53-124.

Postar um comentário