8 de outubro de 2008

Privatização na Rússia (XI)

(Continuação da postagem anterior.)

Para tentar controlar a situação, Yeltsin demitiu Kirienko e tentou trazer de volta Chernomyrdin, cujo nome foi vetado duas vezes pela Duma. Isso criou um impasse político entre Yeltsin, que ameaçou dissolver o Parlamento, e a Duma, que ameaçava pedir o impeachment de Yeltsin, caso o nome de Chernomyrdin fosse indicado pela terceira vez. O impasse político foi solucionado com a indicação de Yevgeny Primakov para Primeiro-Ministro, o que fortaleceu a Duma e enfraqueceu Yeltsin e as oligarquias, pelo menos temporariamente. Este episódio comprova, mais uma vez, o fato de que o Parlamento tentava defender os interesses russos, assim como acontecera em 1993, enquanto que Yeltsin buscava implantar o capitalismo de qualquer forma no país e também beneficiar os oligarcas, que apoiavam seu governo. Como conseqüência da crise russa, “o rublo caiu a quase 1/3 do seu valor em questão de poucos dias. Filas de enraivecidos depositantes formavam-se nos bancos, incapazes de receber seu dinheiro de volta. Todos queriam comprar dólares, cujo valor disparara” (Segrillo, 2000b, 113). Foi necessária a realização de uma total reestruturação do sistema bancário, contrariando os oligarcas. O governo russo interviu nos bancos, decretando falência de alguns, obrigando a fusão e a reestruturação de outros e fornecendo garantias à população por meio dos bancos estatais, que foram os únicos que conseguiram sobreviver à crise. O período do capitalismo exclusivamente financeiro-especulativo havia chegado ao fim, e o poder dos oligarcas fora seriamente abalado.

O novo Primeiro-Ministro Primakov, que tinha o apoio da Duma, preocupou-se em reativar o setor produtivo da economia, logo após a crise de agosto. Adotou medidas de controle de preços e salários, indexação salarial, auxílio estatal para algumas indústrias estratégicas e incentivou um programa de obras públicas. A indústria e a agricultura receberam ênfase no seu governo, e o programa de privatização buscava agora a eficiência das empresas, ao invés de apenas lucro financeiro. Primakov conseguiu “evitar o pior”, mas obteve poucos resultados práticos devido ao endividamento do Estado russo. Foi substituído em maio de 1999, devido ao seu bom relacionamento com a Duma e às suas medidas antioligárquicas.

O ano de 1999 foi um ano complicado no campo político. Em um ano e meio, desde o início de 1998 a agosto de 1999, Yeltsin teria cinco primeiros-ministros diferentes: Chernomyrdin, Kirienko, Primakov, Stepashin e, finalmente, Putin. Isto foi resultado da disputa entre os diversos segmentos da elite para influenciar Yeltsin e os rumos da política econômica após a crise. A substituição de Primakov foi um exemplo dessa disputa por influência. Primakov estava conseguindo manter a Rússia relativamente estável, mas o Primeiro-Ministro “batia de frente” com a oligarquia. Isso levou Yeltsin a substituí-lo por Stepashin, que também ficou pouco tempo no cargo devido a divergências entre o Primeiro-Ministro e a Duma, de um lado, e Yeltsin e os oligarcas, de outro.

Putin assumiu o cargo de Primeiro-Ministro sem ter muita projeção política. A situação se reverteria, contudo, com suas ações enérgicas a fim de solucionar o problema com guerrilheiros islâmicos no Daguestão e, principalmente, com a nova invasão da Chechênia, devido aos ataques com bombas supostamente realizados por chechenos em cidades russas. A ação enérgica de Putin fê-lo ser visto como um Primeiro-Ministro “durão”, que colocaria a Rússia no caminho correto.

Concomitantemente a esse “rodízio” de primeiros-ministros, Yeltsin era enfraquecido por acusações consistentes de corrupção, muitas delas referindo-se ao processo de privatização. As filhas de Yeltsin estariam envolvidas diretamente em desvio de dinheiro, além do próprio Banco Central russo também ser acusado de desvio de verbas. Yeltsin tentou remover o Procurador-Geral, que era quem realizava as investigações, mas a Duma condenou este ato como inconstitucional. Ao mesmo tempo, agências ocidentais também investigavam tais casos de corrupção, comprovando sua veracidade. Comentava-se que a grande preocupação de Yeltsin era evitar que ele tivesse problemas quando acabasse sua imunidade presidencial. Os oligarcas também sofreram seu maior golpe, quando Boris Berezovsky, o oligarca com maior influência sobre Yeltsin, teve sua prisão decretada – ainda que não cumprida.

Para complicar o cenário político, em dezembro de 1999 haveria eleições parlamentares. Os partidos mais fortes disputando as vagas da Duma eram o PCFR, o Yabloko, o Nossa Casa é a Rússia e um novo partido, o Pátria – Toda a Rússia, formado pelo prefeito de Moscou e pelo ex-Primeiro-Ministro Primakov, com orientação ideológica de centro-esquerda e de oposição a Yeltsin. Outros dois novos partidos de direita também surgiram, com o objetivo de apoiar Yeltsin e suas políticas econômicas liberais: o Unidade e o União das Forças Direitas. O resultado das eleições garantiu, mais uma vez, a vitória do PCFR, que ficou com 113 das 450 vagas da Duma. O Unidade ficou com 72 vagas, o Pátria – Toda a Rússia em terceiro com 66 vagas, o União das Forças Direitas com 29 e o Yabloko com 21 vagas. Apesar de ainda ser o partido mais votado, o PCFR não conseguiria maioria na Duma contra os partidos de direita, que apoiavam Yeltsin e Putin – tendo estes partidos, inclusive, sido beneficiados com o aumento de popularidade do Primeiro-Ministro.

(Continua na próxima postagem.)

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