19 de novembro de 2008

A Rússia e a paz mundial (VIII)

(Continuação da postagem anterior.)

CONCLUSÕES

A paz e as políticas interna e externa da União Soviética

Estes são apenas exemplos de como podemos relacionar os conceitos de paz com a realidade experimentada pelo regime soviético. Há vários outros aspectos que podem ser levados em consideração, mas os mesmos tornariam este trabalho muito extenso. Tentamos mostrar, assim, alguns itens práticos que podem ser relacionados com os conceitos apresentados anteriormente.

A primeira forma de se relacionar o sistema soviético com a questão da paz – e, por conseqüência, da violência – é nos lembrando dos conceitos de violência pessoal e violência estrutural e dos possíveis problemas que os governantes podem ter ao tentar resolver estes dois tipos de violência.

É possível afirmar que a sociedade soviética resolveu, em alguns aspectos, o problema da violência estrutural. Isto é possível se analisarmos os benefícios repassados à população, como sistemas de educação, saúde, transporte, calefação e de moradia, onde a grande maioria da população tinha acesso a estes itens a um preço simbólico. Como exemplo, temos que 98% da população soviética era alfabetizada e 96% possuía o equivalente ao segundo grau brasileiro.

Por outro lado, a violência pessoal foi aumentada, principalmente nos períodos de Stalin e de Brezhnev. Durante os seus governos, os dois líderes realizaram repressões em massa, com destaque para Stalin, que ou enviava seus opositores para os gulags – campos de concentração soviéticos – ou, simplesmente, assassinava-os. Ainda, foi durante o período stalinista que ocorreu a criação das fazendas coletivas, os kolkhozes, quando milhares de pessoas perderam o direito às suas terras e outros milhares morreram de fome, devido aos confiscos de grãos utilizados para subsidiar a industrialização soviética.

Outro tipo de violência que podemos apontar no regime comunista é a violência psicológica, se levarmos em consideração o fato de que a ideologia oficial do governo era imposta à população de todas as formas possíveis – e aqueles que eram contra esta ideologia sofriam violência física e pessoal. O medo e o terror impostos à população por parte da polícia de Stalin era outro tipo de violência psicológica, pois a própria demonstração de força, ainda que esta força não seja utilizada, já é caracterizada como violência.

No campo das relações internacionais, podemos dizer que a União Soviética usava de violência contra seus “inimigos” no Ocidente: ao dar demonstrações de força, seja de forma psicológica, ao realizar um teste nuclear ou anunciar o desenvolvimento de um míssel antibalístico, seja de forma física, ao invadir Budapeste em 1956 e Praga em 1968, a URSS estava tentando impressionar os países ocidentais mostrando seu poderio bélico. O simples fato de mostrar ao inimigo o seu poder, de forma intimidatória, já é considerada uma forma de violência.

A atual política externa da Rússia

Nos dias atuais, a Rússia vem dando passos concretos no que diz respeito à manutenção da paz mundial, se considerarmos como paz apenas a ausência de guerras. O governo russo tem se empenhado em colaborar para a solução de conflitos no Oriente Médio, além de manter um bom relacionamento com os países ocidentais. As três maiores áreas de possível conflito, de acordo com a visão russa – os países da Europa oriental e as ex-repúblicas soviéticas, a região do sul da Rússia, onde está havendo um avanço de fundamentalistas islâmicos e a fronteira com a China – estão sendo mantidos sob controle, sem a intervenção de forças armadas.

A Rússia tem mantido seus compromissos no que diz respeito aos programas de desarmamento nuclear, assinados ainda durante o período da União Soviética. Tem realizado ações também no sentido de colaborar com a Bielo-Rússia, a Ucrânia e o Cazaquistão no que diz respeito ao desarmamento nuclear destes países. O país tem também diminuído seu efetivo militar, como forma de mostrar “boa-vontade” aos países ocidentais.

Na política interna, há também uma certa “boa-vontade” para a solução de problemas de ordem estrutural do Estado russo. O fim da União Soviética e a implantação do capitalismo no país desestruturaram todo o sistema político russo, situação esta que foi agravada durante o governo de Boris Yeltsin, que não tinha o apoio necessário para realizar as reformas necessárias. O novo presidente, Vladimir Putin, está conseguindo realizar as reformas necessárias, ainda que ele esteja conseguindo estes resultados verticalizando o poder do governo, isto é, centralizando as decisões no governo central.

É complicado avaliar se um país está sendo ou não violento, pois caímos novamente na questão entre violência estrutural e violência pessoal. Analisando-se apenas no que diz respeito à política e à economia, a Rússia está novamente “entrando nos trilhos”. Podemos dizer, pelo menos, que, com esta reorganização política, administrativa e econômica da Rússia, o mundo atinge uma relativa estabilidade, que se converte na manutenção da paz mundial – novamente considerando-se a paz apenas como ausência de violência física.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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GALTUNG, Johan. Violência, paz e investigação sobre a paz. In Journal of peace research, s. l., s. ed., 1969, p. 167-191, vol. VI.

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