31 de agosto de 2007

A influência da China no processo de integração do Sudeste Asiático

A China, hoje, é o país com as maiores perspectivas de desenvolvimento econômico, político e social no Sudeste Asiático. Mesmo tendo a presença do Japão tão próxima, a China passou a ser um dos países com mais influência naquela região, devido à crise que assolou a economia japonesa na última década. A influência chinesa é não apenas econômica, mas também militar, política e principalmente cultural. O país conseguiu, ao longo das duas últimas décadas, sair de uma posição de relativa insignificância econômica na Ásia e no mundo e passar à posição de “influenciador” da política regional asiática e, também, da política mundial, tendo a possibilidade de vir a se tornar uma potência de grande porte.

Aqueles que estudam a China e outros países que não as economias ocidentais sabem que a crescente importância que a China possui hoje no Sudeste Asiático e também no resto do mundo deriva de suas reformas econômicas, que foram muito bem-sucedidas, dando ao país um grande crescimento econômico. Contudo, é possível destacar outro papel de fundamental importância no crescimento e na consolidação da hegemonia chinesa naquela região do mundo: a cultura. Foi a cultura chinesa, “exportada” do país tanto em campanhas oficiais quanto por emigrantes chineses, que permitiu a criação de toda uma estrutura que sustenta a posição da China no mundo atual.

Os “chineses de ultramar” são pessoas nascidas nesta parte do mundo, afetadas pela esfera de influência cultural da China. Seu papel de intermediários, em termos de agentes financeiros, comerciantes e empresários no caminho de uma expansão econômica da China em direção aos demais países do Sudeste Asiático, tais como a Malásia, Singapura, Vietnam, Tailândia e Coréia do Sul, dentre outros, adquire interesse especial, já que estas pessoas apresentam-se como capazes de, por meio do fortalecimento de certos traços culturais herdados de um período de hegemonia chinesa criar, em nível regional, um marco de referência que permita, frente à imposição de práticas de mercado e normas políticas externas, afirmar valores, idéias e crenças, consolidadas por meio de uma história compartilhada, em uma geografia determinada.

Estima-se que atualmente existam 55 milhões de pessoas de origem chinesa vivendo no Sudeste Asiático -- fora os 23 milhões de Taiwan. Mesmo não possuindo nenhum poder político, no sentido de influenciar o rumo da China, este grupo está sendo capaz de ampliar a fronteira econômica do país, contribuindo para o próprio desenvolvimento interno da China e aumentando a integração deste país com os demais países da região, mesmo sem a participação efetiva dos governos dos países em questão. Sem dispor de poder político algum para influenciar o rumo dos acontecimentos na China, estes “chineses de ultramar” estão sendo capazes de atuar como a força motora de processo que amplia a fronteira econômica de uma China ainda em desenvolvimento, com dimensões continentais e 1,3 bilhões de habitantes. Para tanto, estes “chineses de ultramar” dispõem de cerca de US$ 500 bilhões para seus investimentos e transações comerciais.

Mas como esses “chineses de ultramar” contribuíram -- e ainda contribuem -- para o fortalecimento, a consolidação e a expansão da influência chinesa nos países do Sudeste Asiático? Quais são as atividades que permitem a tais chineses expandir a esfera de influência da China?

O ponto principal que faz com que os “chineses de ultramar” trabalhem em outros países mas continuem mantendo fortes os seus vínculos com os “chineses continentais” é a cultura. Formou-se uma rede regional, com base em vínculos étnicos, que permite o fluxo de dinheiro, bens, idéias e, até mesmo, de pessoas entre as empresas. Essas minorias utilizam-se de laços estabelecidos a partir do fato de falarem o mesmo dialeto, possuírem parentes distantes ou serem originários do mesmo povoado, província ou região. A relação de confiança que tais condições conferem a transações comerciais e financeiras supera a capacidade de coerção ditada por muitos diplomas legais no Ocidente.

O fato de que esta vasta rede de contatos ainda se mantém unida deve-se às estruturas empresariais com fortes traços familiares. “Entre as características apresentadas, encontra-se o esforço, em cada companhia, de manter a tradição dinástica, em nível de propriedade e gerência, que são características da cultura chinesa”. Assim, é comum que herdeiros com formação profissional em Medicina, Engenharia e outras áreas totalmente distintas de Administração ou Economia venham a ser convocados após a morte de seus pais para dirigir empresas da família. Não haveria, por outro lado, claros indícios de que cargos de direção venham a ser transferidos para profissionais ou investidores institucionais. Um sistema empresarial baseado em grande número de companhias gerenciadas com base em estilos autocráticos possuiria a aparente vantagem de tomadas de decisão rápidas. As desvantagens existiriam, também, em mundo de economia globalizada, na medida em que o crescimento dos conglomerados empresariais cria necessidades que ultrapassam a capacidade de gestão contida apenas nos vínculos familiares.

No momento em que a globalização reorganiza o sistema político e econômico internacional, a crescente integração entre a China e os demais países do Sudeste Asiático citados anteriormente é ajudada por essas redes de natureza cultural, financeira, comercial e de valores entre os “chineses continentais” e os “chineses de ultramar”. Dessa forma, a existência de uma mesma base cultural garante e amplia essa integração. Como se daria essa integração, ou seja, o que os vizinhos bem-sucedidos da China teriam a oferecer ao antigo “Império do Meio” e o que este teria a oferecer aos seus vizinhos? Os “Tigres Asiáticos” indicarão os rumos para a melhoria do “socialismo com características chinesas”, enquanto os chineses contribuiriam fornecendo o quadro ideológico, institucional e político para a estabilidade da região.

De que forma, entretanto, esta ampliação da área de influência da China sobre os países do Sudeste Asiático vem ocorrendo? É possível ressaltar o fato de que, desde o início da atual política de modernização do país, no final da década de 1970, houve acontecimentos que podem facilitar uma futura união entre a área de influência tradicional da cultura chinesa e uma nova fronteira econômica deste país. Na primeira etapa desse processo, com Deng Xiaoping no governo, foi reorganizado o sistema econômico chinês. Vieram as Zonas Econômicas Especiais, onde práticas de mercado foram aceitas dentro de um sistema político centralizado. O passo posterior foi a reintegração de Hong Kong e de Macau, restando a reintegração de Taiwan para a completa restauração territorial do antigo Império Chinês. O terceiro e último passo seria a possibilidade da China transformar os países do Sudeste Asiático anteriormente citados em sua área de influência, contrabalançando e eventualmente substituindo o poder que o Japão -- ainda que enfraquecido economicamente – ainda possui. Esta área de influência está sendo criada com a ajuda dos “chineses de ultramar”. Como se daria, então, o relacionamento de idéias e valores entre os chineses e seus vizinhos? Este terceiro e último passo ocorreria por meio da troca e do intercâmbio de valores entre tais países, historicamente ligados ao Império do Meio e com um grande contingente populacional de origem chinesa, e a própria China. A existência dessa base cultural chinesa serviria como plataforma de sustentação para o processo de cooperação com os países do Sudeste Asiático. Este processo de integração traria as seguintes contribuições:

(...) Os países bem sucedidos como a ‘vitrine do capitalismo no Sudeste Asiático’ -- a exemplo de Cingapura -- indicariam os rumos para o aperfeiçoamento da ‘economia socialista de mercado com características chinesas’, atualmente buscada pelo programa de modernização da China; a persistência do Vietnã em manter seu sistema central de planejamento, ao mesmo tempo em que adota ‘práticas de economia de mercado’, reforçaria a proposta chinesa de manter a vertente ‘socialista’ entre as medidas que estão sendo testadas no programa de modernização da China; e o esforço de composição permanente, no sentido da manutenção da harmonia e convivência pacífica entre a população de origem chinesa e os de fé islâmica, na Malásia e Indonésia, serviria como inspiração para exercício semelhante a ser promovido na região central da China, principalmente na província de Xinjiang, onde há expressivo contingente de muçulmanos, bem como a necessidade de relacionar-se com novas repúblicas, como a do Tadjiquistão, onde predomina a mesma religião.

Podemos destacar, neste processo de integração, o caso de Singapura, país que possui um relacionamento privilegiado com a China devido à participação de 75% de chineses na sua população de 3 milhões. A Malásia é outro país com grande número de chineses, sendo que este grupo corresponde a 35% do total de 17 milhões de habitantes malaios. Esta presença maciça de chineses em tais países praticamente os obriga a buscar um bom relacionamento com a China, contribuindo para a estabilidade regional e fortalecendo o processo de integração. Assim, ocorre, por um lado, o ressurgimento da influência político-cultural chinesa e, por outro, o sucesso da economia em áreas do Sudeste Asiático forneceria modelos e propostas para o projeto de modernização da China.

Referências bibliográficas:

EMBAIXADA da República Popular da China no Brasil. Disponível em http://www.embchina.org.br. Acessado em 02 de fevereiro de 2002.

MEZZETTI, Fernando. De Mao a Deng: a transformação da China. Trad. Sérgio Duarte. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000.

PINTO, Paulo Antônio Pereira. A Influência Político-Cultural Chinesa e a Integração Econômica no Sudeste Asiático. Disponível em http://www.relnet.com.br/pgn/papepinto7.lasso. Acessado em 02 de fevereiro de 2002.

SHI, Qin. China. Beijing: Editorial Nueva Estrella, 1997.

XIAOPING, Deng. Problemas fundamentales de la China de hoy. Beijing: Ediciones en Lenguas Extranjeras, 1987.


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