22 de agosto de 2007

Por que a Rússia?

Como é de conhecimento público, tenho um grande interesse acadêmico pela Rússia. Venho fazendo diversas pesquisas sobre diversas áreas do país já há alguns anos, e minha tese de doutorado é também sobre aspectos culturais e políticos de lá. A pergunta que sempre surge por parte de conhecidos é: por que a Rússia? Afinal de contas, nós brasileiros temos a noção de que o país é distante, gelado e que lá só tem vodka e urso. Sendo assim, gostaria de apresentar alguns dos principais motivos que me levam a pesquisar o país.

O primeiro motivo é a ausência da Rússia no cenário acadêmico brasileiro. Poucos são os pesquisadores brasileiros que levam a cabo estudos sobre aquele país, dentre os quais destacam-se o prof. Ângelo Segrillo, da Universidade Federal Fluminense, e a profa. Lenina Pomeranz, da Universidade de São Paulo. Apesar da importância da Rússia no cenário internacional contemporâneo (ver abaixo), o país continua sendo pouco estudado aqui no Brasil. Tal ausência pode ser confirmada por uma simples pesquisa bibliográfica: apenas duas referências, dentre as 26 pesquisadas para a redação do meu projeto de doutorado, estão em português. Uma destas referências em português é uma tradução do inglês, e a outra é um artigo de uma professora russa que escreveu o texto em português. Vemos que não há nenhum trabalho feito por pesquisadores brasileiros sobre o assunto, e acredito que minhas pesquisas podem se inserir nesta lacuna diminuindo a ausência da Rússia no cenário acadêmico brasileiro.

O segundo motivo se relaciona com a ausência de pesquisas sobre o tema específico com o qual eu trabalho. Conforme mostramos anteriormente, em minha pesquisa bibliográfica inicial não encontrei nenhum estudo, seja em português, em inglês ou em espanhol, que trate especificamente do tema que me proponho estudar. Não há estudos sobre como os itens principais da minha pesquisa -- a formação da nacionalidade russa e a participação política atual -- se relacionam, e é nesta lacuna que minhas pesquisas pretendem se incluir. Neste sentido, acredito ser um ponto positivo o conhecimento da língua russa, com a qual estou em contato desde 2001: tal conhecimento será extremamente útil e importante por me permitir um contato direto com a historiografia russa sem depender exclusivamente de fontes secundárias em outras línguas.

O terceiro motivo se baseia na própria importância da Rússia no contexto mundial contemporâneo, mesmo com o fim oficial da URSS e da Guerra Fria. Três pontos servem para nos mostrar tal importância. O primeiro é a área militar: apesar do declínio de suas forças tradicionais, a Rússia continua tendo o maior potencial nuclear do mundo, tanto em ogivas ativas quanto inativas, superando o potencial nuclear dos EUA (NORRIS; KRISTENSEN, 2006). O segundo ponto se refere à economia: mesmo sofrendo a crise econômica de 1998, o país, a partir do ano 2000, vem registrando um forte crescimento do PIB, com aumento médio anual de 6,8% entre 2000 e 2005. As reservas cambiais do país também cresceram, chegando, em setembro de 2006, ao montante de US$ 289 bilhões (BANCO Central da Federação da Rússia, 2006). Como é sabido, a Rússia tem se utilizado deste forte crescimento econômico, especialmente na área de energia, para fazer valer suas demandas internacionais. Além disso, o país é considerado como uma das principais áreas propícias para investimento, juntamente com China, Índia e o próprio Brasil. O terceiro ponto que demonstra a importância da Rússia se refere especificamente ao Brasil: o comércio bilateral entre o Brasil e a Rússia saltou de US$ 609 milhões em 1994 para quase US$ 3 bilhões 900 milhões em novembro de 2006 (BRASIL, 2006). Mesmo a Rússia não sendo um dos principais parceiros comerciais brasileiros, é inegável que o intercâmbio econômico entre os países vem aumentando, o que faz surgir também interesse em outras áreas, inclusive a acadêmica, na qual minhas pesquisas se inserem.

Por fim, o último -- mas não menos importante -- motivo que me leva a escolher a Rússia é de ordem pessoal. Tendo viajado pela primeira vez para Moscou em 2000, desde aquela época surgiu o interesse em estudar um país que, ao mesmo tempo em que é muito diferente do nosso, possui diversas semelhanças em aspectos políticos, sociais e culturais. Alguns trabalhos de comparação entre o Brasil e a Rússia já foram realizados por mim, como um projeto financiado pelo PIBIC -- Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica -- em 2001/2002 e a própria monografia final do curso de graduação em Ciência Política, realizado na Universidade de Brasília. Outras quatro viagens realizadas à Rússia, em setembro/2003, em dezembro/2003-janeiro/2004, em dezembro/2004-fevereiro/2005 e em setembro/2006 serviram para conhecer melhor o país, sua cultura, seus costumes e sua língua, além de reafirmar a importância do país no contexto mundial e a necessidade de estudar os diferentes aspectos que formam o mosaico chamado Rússia.

Referências bibliográficas:

BANCO Central da Federação da Rússia. Informações diárias. Dezembro de 2006. Disponível em http://www.cbr.ru/eng/main.asp. Acessado em 16 de dezembro de 2006.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Departamento de Planejamento e Desenvolvimento do Comercio Exterior. Intercâmbio comercial brasileiro por blocos econômicos e países. Disponível em http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/secex/depPlaDesComExterior/indEstatisticas/intCom_IntBloEconPaises.php. Acessado em 16 de dezembro de 2006.

NORRIS, Robert S.; KRISTENSEN, Hans M. “Russian nuclear forces, 2006”. In: Bulletin of the atomic scientists. Março/Abril 2006, pág. 64-67, vol. 2, nº 2. Disponível em http://www.thebulletin.org/article_nn.php?art_ofn=ma06norris. Acessado em 16 de dezembro de 2006.


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