26 de setembro de 2007

História do pensamento econômico (IV)

Dando continuidade à série "História do pensamento econômico", coloco abaixo mais itens que compõem a chamada "escola marginalista da economia".

ESCOLA MARGINALISTA

Como a Escola Marginalista concordava com alguns dos aspectos da Escola Clássica, podemos defini-la como sendo um dos ramos da Escola Neoclássica.

A teoria da utilidade marginal do valor foi formulada, de forma independente, pelo inglês William Jevons, pelo austríaco Carl Menger e pelo francês Leon Walras no final do século XIX. Analisaremos aqui apenas o trabalho de Walras, nomeadamente o seu livro Elementos de Economia Política Pura. Embora as descobertas dos três pensadores sejam de importância equivalente, Walras procedeu a uma formalização matemática que influenciou bastante o curso futuro da Economia.

Desde muito cedo Walras defendeu a livre concorrência e a iniciativa privada, tendo mesmo mantido polêmicas com os socialistas a este respeito. Foi na seqüência destas polêmicas que ele decidiu elaborar um sistema capaz de fundamentar as suas opções. A sua formação em engenharia e o domínio da matemática ajudaram-no a obter os resultados que desejava. Walras aproveitou idéias de vários antecessores, nomeadamente a noção de interdependência de todos os fenômenos sociais e a idéia de que o valor deriva da utilidade e da escassez.

Recordemos que os economistas clássicos como Adam Smith, embora admitindo que a oferta e a procura influenciavam o preço de mercado (valor de troca), entendiam que, em última análise, era da capacidade de um produto para satisfazer as necessidades de uma pessoa que derivava o seu valor de uso, o que poderemos considerar como equivalente de utilidade.

Walras foi o primeiro a procurar construir, com a ajuda de um sistema de equações, um modelo para explicar o equilíbrio geral das trocas, intermediado pelos preços. Neste sentido ele é certamente um dos precursores da Econometria.

O valor de troca é uma grandeza. Ela depende das matemáticas. A economia política pura ou a teoria do valor de troca é como a mecânica, a hidráulica, uma ciência fisico-matemática (WALRAS, citado por CANO, 1998, p. 89).

Os marginalistas defendem que a utilidade marginal de um bem é uma função decrescente da quantidade disponível desse bem. Defenderam igualmente que a utilidade total, para um indivíduo, resulta da adição das utilidades proporcionadas pelo consumo de cada bem.

"Se é certo que a raridade e o valor de troca são dois fenômenos concomitantes e proporcionais, certo é que a raridade é a causa do valor de troca" (WALRAS, citado por CANO, 1998, p. 92). Esta afirmação de Walras é a mesma que hoje utilizamos ao estudar a lei da utilidade marginal decrescente, com as designações de escassez no lugar de raridade, e preço no lugar de valor de troca.

A descoberta dos marginalistas permitiu finalmente resolver o paradoxo do valor, com que os economistas clássicos tinham debatido sem sucesso. Os diamantes atingiam preços mais elevados do que a água -- podiam agora explicar os marginalistas -- devido à sua maior raridade. A lei das utilidades marginais decrescentes implicava que o preço fosse determinado pela utilidade marginal das últimas unidades consumidas, que era menor nos bens mais abundantes.

Ora, para se atingir a maximização da utilidade é essencial o sistema de concorrência. Desta forma Walras pretende provar a sua defesa do sistema capitalista. Ele constrói o seu modelo a partir da lei de igualdade das utilidades marginais por unidade monetária. De acordo com esta lei pode-se afirmar que a procura dos consumidores é função dos preços de equilíbrio.

Esta equivalência de utilidades marginais por unidade monetária também pode ser estendida, como o faz Walras, ao comportamento do produtor quando vende um bem ou um serviço. Ficar sem um produto ou prestar um serviço supõe um sacrifício, ou seja, uma "desutilidade".

O sistema global de Walras teve como resultado a determinação do equilíbrio geral, ou seja, aquilo que designaríamos hoje como interação da oferta e a procura em mercados concorrenciais, não apenas para um bem, mas para um conjunto de bens simultaneamente - pois, como vimos, tem de existir equilíbrio entre as utilidades marginais por unidade monetária de todos os bens adquiridos (ou desutilidade para os fatores de que prescindimos).

SUBJETIVIDADE

O conceito de utilidade arrasta consigo a noção de subjetividade: a utilidade que um bem pode ter para uma pessoa é diferente da utilidade que esse mesmo bem pode ter para outra pessoa. Se o valor de um bem resultasse do trabalho necessário para o produzir (como defendia Marx) então esse valor seria sempre o mesmo, seria objetivo. A subjetividade do valor de um bem significa que ele varia de pessoa para pessoa.

Os marginalistas tinham consciência de que a utilidade apenas poderia ser mensurada cardinalmente (ou seja, como "maior que" ou "menor que"). Walras tem consciência de que a utilidade, com a sua característica subjetiva, se encontra no domínio da psicologia. No entanto entende que nem por isso deixa de poder ser traduzida matematicamente, já que a utilidade acaba por ser refletida no preço, que é um valor susceptível de ser tratado matematicamente.

OTIMISMO

A visão da escola marginalista permitiu à economia adotar uma visão otimista, ultrapassando as visões clássicas (nomeadamente de Ricardo) relativas à população e à diminuição da taxa de lucro, que implicavam um “estado estacionário”. A verdade é que a observação da realidade não apresentava provas de que os salários reais estivessem subindo ou que as taxas de lucro estivessem descendo.

O sistema marginalista mostrava como a economia dispunha de um mecanismo de adaptação automática que não só permitia como incentivava o progresso técnico, e daí a conclusão de que a economia poderia -- e deveria -- ser deixada livre, entregue às suas leis, que resolveriam qualquer problema da melhor forma possível. Este otimismo e a conclusão de que a economia possui forças e mecanismos internos que lhe permitem obter os melhores resultados possíveis é algo equivalente à metáfora da "mão invisível" de Adam Smith.

(Continua na próxima postagem.)

Referências bibliográficas:

CANO, Wilson. Introdução à economia: uma abordagem crítica. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.

SAMUELSON, Paul A. & NORDHAUS, William D. Economia. 12ª Edição. Lisboa: McGraw-Hill, 1988.


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