28 de setembro de 2007

História do pensamento econômico (VII)

Dando continuidade à série "História do pensamento econômico", coloco abaixo mais itens que compõem a chamada "escola keynesiana da economia", cujo principal representante é John M. Keynes.

A REVOLUÇÃO KEYNESIANA

A história da primeira metade do século XX foi marcada por duas grandes guerras, ditas mundiais: a primeira entre 1914 e 1918, a segunda entre 1939 e 1945. Outro acontecimento de relevo foi a grande crise econômica dos anos 30, que teve início num grande colapso na bolsa de Nova Iorque, ainda em 1929. A crise que se prolongou a todo o mundo pela década de 30 ficou conhecida como "A Grande Depressão".

O economista inglês John Maynard Keynes tornou-se famoso por várias razões. Em primeiro lugar pela crítica que fez às condições econômicas que os Aliados impuseram à Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial.

Keynes, no entanto, viria a tornar-se ainda mais famoso por outra razão: com a publicação, em 1936, do livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, viria a revolucionar o pensamento econômico -- e por isso se fala de "revolução keynesiana" --, criando as bases para a formulação da macroeconomia. Ainda hoje as idéias de Keynes dividem o mundo do pensamento econômico em dois importantes grupos, conforme se situam a favor ou contra o pensamento geral formulado por Keynes em 1936. A influência de Keynes ainda se fez sentir diretamente nas negociações de reforma do sistema financeiro internacional, em Breton Woods, após a Segunda Guerra Mundial.

AS CONSEQÜÊNCIAS DA PAZ

Keynes começou sua carreira trabalhando para o governo inglês, após a Primeira Guerra Mundial, no processo de determinação das indenizações que a Alemanha teria de pagar aos vencedores. Keynes se opôs ao valor das indenizações fixadas, por considerar que eram demasiadamente elevadas e impossíveis de serem suportadas pela Alemanha; abandonou as negociações e escreveu um livro sobre o assunto, Conseqüências Econômicas da Paz, que se tornou imediatamente um livro famoso.

As idéias de Keynes não foram aceites pelos negociadores. O tempo provou que Keynes tinha razão neste assunto: a Alemanha nunca chegou a pagar a totalidade das indenizações fixadas e a natureza humilhatória com que foram consideradas pelos alemães ajudou a cimentar o espírito vingativo que contribuiu para o desencadear da Segunda Guerra Mundial. Mais do que isso: quando após a Segunda Guerra Mundial os EUA desenvolveram um plano para a reconstrução econômica da Europa (Plano Marshall), incluindo a Alemanha, estavam precisamente aplicando a idéia defendida por Keynes. Uma das condições impostas pelos americanos para concederem essa ajuda foi a de que os países europeus cooperassem entre si e coordenassem as suas políticas, e este foi o embrião do que se viria a transformar na atual União Européia. Portanto, de certo modo, até na realidade econômica que atualmente domina os países europeus encontramos a influência de Keynes.

TEORIA GERAL DO EMPREGO, DO JURO E DA MOEDA

A grande novidade da teoria apresentada por Keynes no seu livro de 1936 foi a negação do que os economistas vinham acreditando desde o tempo dos clássicos, ou seja, que a economia funcionava de tal modo que, automaticamente, ela se autoregulava e atingia o equilíbrio, sem produção em excesso ou recursos livres para serem utilizados.

Apesar desta visão otimista, era evidente que, de tempos a tempos, ocorriam crises, quer de superprodução, quer de desemprego. Estas crises eram, no entanto, vistas como exceção e não como a regra, ou então eram consideradas como o resultado da intromissão do Estado na economia. Sem tal intromissão, pensava-se, as crises nunca ocorreriam ou seriam rapidamente corrigidas.

A grande crise, iniciada em 1929 nos EUA e propagada durante os anos 30 por todo o mundo, representou uma evidente manifestação de que as teorias de autoregulação da economia não estavam certas. No entanto, Keynes foi o primeiro a apresentar uma formulação teórica que, ao contrário da teoria dominante, afirmava que as crises eram inerentes ao funcionamento da economia e que, se a economia fosse deixada sozinha, ela caminharia para o desequilíbrio.

Portanto, de acordo com a teoria keynesiana, o Estado deveria intervir para evitar ou corrigir as crises econômicas. Além de alterar a visão dominante que via a economia como um sistema que se regulava automaticamente, Keynes apresentou um forte argumento a favor da intervenção do Estado na atividade econômica.

As idéias de Keynes foram inicialmente recusadas, tanto pelas universidades como pelos políticos. No entanto, a crise econômica afetara de modo tão profundo a vida dos países e das pessoas que os governos se viram obrigados a intervir, principalmente por motivos de natureza social. Nos Estados Unidos foi desenvolvido um programa de obras públicas destinado a atenuar as conseqüências do elevado desemprego -- o New Deal.

Contudo, foi particularmente o esforço de guerra nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial -- ou seja, o fato da economia americana ter sido estimulada pelas encomendas de armamento feitas pelo governo americano -- que mais efeito teve na recuperação econômica.

No fim da Segunda Guerra Mundial, tanto os países que tinham perdido a guerra como os vencedores europeus estavam economicamente muito enfraquecidos. No entanto, nos EUA, a economia tinha recuperado totalmente.

A teoria de Keynes foi se afirmando no meio universitário, ao mesmo tempo em que o exemplo de sucesso econômico dos Estados Unidos se propagava por todo o mundo não comunista, a ponto de, nos anos 70, o presidente norte-americano Richard Nixon ter afirmado que todos os países eram keynesianos.

A contestação às teorias de Keynes só veio ressurgir a partir dos anos 80, particularmente depois da crise originada pelos súbitos aumentos do preço do petróleo (em 1973 e 1979), para a qual as políticas keynesianas não se manifestaram satisfatórias. Surgia então o neoliberalismo.

A crise financeira ocorrida na Ásia no final dos anos 90, por outro lado, parecem dar alguma razão às teorias keynesianas. O pensamento econômico da atualidade continua, assim, dividido entre os herdeiros do pensamento keynesiano e os herdeiros do pensamento clássico, cada um deles dividido em várias escolas ou correntes de pensamento.

(Continua na próxima postagem.)

Referências bibliográficas:

CANO, Wilson. Introdução à economia: uma abordagem crítica. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.

SAMUELSON, Paul A. & NORDHAUS, William D. Economia. 12ª Edição. Lisboa: McGraw-Hill, 1988.


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