29 de setembro de 2007

História do pensamento econômico (VIII)

Terminando a série "História do pensamento econômico", coloco abaixo mais itens que compõem a chamada "escola keynesiana da economia", cujo principal representante é John M. Keynes.

A LEI DOS MERCADOS DE SAY

De acordo com os economistas clássicos, situações de elevado desemprego eram situações temporárias que a própria dinâmica da economia acabaria por corrigir de forma automática. Se houvesse um elevado número de pessoas desempregadas, os salários desceriam até ao ponto em que voltasse a valer a pena empregá-las de novo. O mesmo aconteceria com fábricas paradas: os produtos seriam vendidos a preços mais baixos e a reanimação econômica seguir-se-ia automaticamente.

Esta idéia de automatismo da economia em direção ao pleno emprego dos recursos era típica do pensamento clássico. A sua formulação mais conhecida é a da "lei dos mercados" de Say: "A oferta cria a sua própria procura". Ou seja, a venda dos produtos origina os meios com que eles próprios virão a ser adquiridos. Um homem que fabrica um produto vende-o para, com a receita, adquirir outros produtos. Claro que cada produtor não vai adquirir os próprios produtos que acabou de vender, mas sim outros. No entanto, considerando a economia globalmente, o total da receita obtida com a venda de todos os produtos é precisamente a que vai servir para os adquirir. Esta idéia deve muito à convicção de que o dinheiro é um mero intermediário na troca dos bens produzidos.

O ataque de Keynes a este raciocínio baseava-se na idéia de que nem todo o dinheiro ganho com a venda dos bens é reutilizado na atividade econômica. Sabemos que nem todo o dinheiro obtido com a produção de bens é diretamente gasto na aquisição de bens: parte dele é poupado. Este dinheiro poupado é aplicado em depósitos bancários ou na compra de títulos de crédito – pois de outra forma perderia o rendimento gerado por estas aplicações. O dinheiro depositado nos bancos ou aplicado na aquisição de títulos vai, por sua vez, ser utilizado pelas empresas para investimento (ou seja, aquisição de bens de investimento).

Desta forma, todo o dinheiro obtido com a venda de bens é utilizado na compra de outros bens: ou diretamente como despesa de consumo, ou indiretamente como poupança canalizada para despesa de investimento. No entanto, isto exige que o investimento seja igual à poupança (I = S, na formulação matemática do modelo macroeconômico).

O que Keynes coloca como hipótese é a possibilidade do investimento ser inferior à poupança:

"A análise tradicional compreendeu que a poupança depende do rendimento, mas negligenciou o fato de que este depende do investimento em tal relação que, quando o investimento varia, o rendimento é forçado a variar no grau justamente necessário para fazer com que a variação na poupança seja igual à do investimento" (KEYNES, citado por CANO, 1998, p. 145).

Uma vez instalada a desigualdade entre poupança e investimento o processo tende a se agravar: os empresários retraem-se quanto ao investimento, e tende a aumentar a tendência para poupar.

Os clássicos defendiam que, em uma situação como esta, os preços desceriam (nomeadamente os da mão-de-obra) atraindo as empresas para novos investimentos. O que Keynes defende é que a economia pode ficar em equilíbrio (portanto, em uma situação estável) abaixo do nível de pleno emprego. Em vez de tender automaticamente para a recuperação, a economia tende a manter-se estagnada.

Qual é então a solução? Keynes defende que o Estado deve intervir, realizando ele próprio investimentos para que a economia recupere.

O "CIRCUS" DE CAMBRIDGE

Na universidade de Cambridge existia um círculo de economistas que debatia entre si os grandes problemas da teoria econômica. Este círculo -- que Keynes designava como "circus" -- foi muito importante para a consolidação e divulgação das teorias keynesianas.

Antes de publicar o seu livro Keynes o mostrou aos seus amigos, que contribuíram para a preparação do livro. Depois da sua publicação, este mesmo "circus" deu importantes contribuições, não só para defesa e divulgação do seu conteúdo como para aplicação das idéias ali defendidas a outras áreas da análise econômica.

Foram outros economistas que desenvolveram o princípio do "multiplicador": a idéia de que as despesas de investimento do Estado aparecem ampliadas no crescimento do Produto Interno Bruto.

BRETON WOODS

Após a Segunda Guerra Mundial Keynes foi designado pela Inglaterra para representá-la nas negociações sobre a reorganização do sistema financeiro internacional, que decorreram em Breton Woods, nos EUA. Apesar do prestígio de Keynes, o fato de os EUA serem a verdadeira potência vencedora da guerra fez com que as idéias americanas, em parte diferentes das de Keynes, fossem as "vencedoras" em Breton Woods.

Keynes, por exemplo, defendia a criação de uma verdadeira moeda internacional, o Bancor, que deveria coexistir com as restantes moedas nacionais. Formalmente, chegou-se a criar uma moeda internacional, denominada "direitos de saque especiais", mas o mecanismo de indexação à moeda americana fez com que tivesse sido o dólar a verdadeira moeda internacional criada em Breton Woods.

INTERVENCIONISMO ESTATAL

A defesa que Keynes fez da intervenção do Estado ajudou a moldar o caráter intervencionista de todos os Estados modernos, mesmo daqueles que se dizem "não intervencionistas". A verdade é que Keynes defendia a intervenção do Estado apenas quando a economia se encontrava em crise, com desemprego elevado e não se mostrando capaz de se recuperar pelos seus próprios meios. Nesse caso, o Estado devia investir, complementando a insuficiência do investimento privado. Fora isso as empresas deveriam poder atuar sem intromissão estatal.

No entanto, a teoria keynesiana incentivou o aumento da influência dos Estados modernos na economia, que se tem mantido mesmo depois das idéias keynesianas terem sido postas em dúvida pela denominada "contra-revolução neoclássica", que defende o não intervencionismo do Estado -- o neoliberalismo.

Referências bibliográficas:

CANO, Wilson. Introdução à economia: uma abordagem crítica. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.

SAMUELSON, Paul A. & NORDHAUS, William D. Economia. 12ª Edição. Lisboa: McGraw-Hill, 1988.


Postar um comentário