17 de dezembro de 2007

Formação do estado russo (I)

A partir de hoje publico um trabalho que fiz para uma disciplina do meu doutorado em História Política e Cultural na Universidade de Brasília. O trabalho ficou grande, com 40 páginas escritas por mim e mais 33 páginas de anexos. Alguns dos anexos serão publicados ao final dos respectivos textos em que são mencionados.

1. Introdução

Falar sobre o processo de formação do estado russo é tarefa árdua. A Rússia é um país com mais de mil anos de história e, mais que isso, uma história que, em sua origem, é comum a pelo menos três estados contemporâneos: Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia. O território que hoje corresponde a estes três estados foi palco de lutas intensas entre diversas civilizações -- tais como ucranianos, russos, mongóis, lituanos, poloneses e turcos, para citarmos apenas as principais. Suas fronteiras expandiram-se e contraíram-se continuamente durante os primeiros oito séculos de sua história, e o resultado de tais processos, somado ao próprio processo excepcional que marcou o século XX -- a criação da União Soviética -- faz com que, até os dias atuais, haja uma imensa dificuldade em se definir o que é efetivamente "russo" no contexto histórico-cultural de tal país.

O primeiro passo nesta empreitada diz respeito à temporalidade: quando surgiu o estado russo? Esta pergunta é de fundamental importância na contemporaneidade porque é sua resposta que dá sentido à própria definição da identidade da Rússia contemporânea. Porém, esta é uma pergunta, em princípio, difícil de ser respondida porque o estado russo se formou com características de três períodos distintos: o período do chamado "Principado de Kiev" (ou ainda "Rússia de Kiev"), que vai de 988, com a conversão de Vladimir ao cristianismo ortodoxo, até 1240, com a invasão mongol do território russo; o período da chamada "Rússia dos domínios", de 1240 até 1480, com a vitória final dos moscovitas sobre os mongóis, expulsando-os de seu território; e o período que vai de 1480 a 1682, chamada comumente de "Rússia Moscovita" ou "Moscóvia", que vai até o início do reinado de Pedro, o Grande.

Como o período é longo, englobando sete séculos de história, faz-se necessário delimitar o processo de forma espacial e temporal. Assim, iremos analisar aspectos que dizem respeito a eventos ocorridos que têm como foco central a cidade de Moscou, capital da Rússia. A escolha não é aleatória: como será posteriormente mostrado, Moscou foi a cidade que reuniu condições suficientes para se impor frente aos demais principados da época e levar adiante o processo de centralização política que, no século XVII, culminou no Império Russo. Portanto, nosso objeto será analisado no recorte temporal que vai de 1147, ano de fundação de Moscou, até 1682, ano em que Pedro, o Grande, então com 10 anos, foi oficialmente proclamado czar juntamente com seu meio-irmão Ivan. O presente trabalho tem como objetivo principal analisar algumas fontes referentes ao processo de formação do estado russo e relacioná-las ao contexto histórico no qual tal estado surgiu. Serão levados em consideração principalmente aspectos da esfera política, com eventuais citações de acontecimentos das esferas econômica e social do período. Da mesma forma, pretendemos fazer breves apontamentos sobre o impacto de tais acontecimentos na contemporaneidade.

O trabalho se dividirá em três partes principais. Na primeira parte será apresentado um breve histórico do período delimitado acima com o objetivo de contextualizar os principais fatos da época. Em seguida, será feita uma apresentação das fontes a serem utilizadas no trabalho, mostrando-se os principais tópicos presentes nas mesmas. Por fim faremos, na conclusão, uma pequena análise das fontes correlacionando-as com o contexto histórico apresentado na primeira parte do trabalho.

2. Contexto Histórico

O período a ser analisado por este trabalho é comumente chamado, na literatura especializada, de período "pós-Rússia de Kiev", ou seja, o período no qual o principal estado eslavo entrou em declínio e possibilitou a conquista de seu próprio território pelos mongóis vindos da Ásia. Como afirmam Kaiser e Marker (1994, p. 79), "em meados do século XII a Rússia de Kiev entrou em declínio. As guerras entre os príncipes ficaram mais ferozes, enquanto sucessivas ondas de ataques dos nômades das estepes [vindos da Ásia] continuaram a diminuir a vitalidade da economia do país".(1) O antigo estado eslavo, cuja capital era a cidade de Kiev (atual Ucrânia), não estava sendo capaz de manter sua posição como um estado próspero e poderoso principalmente pelo fato de os sucessivos príncipes não serem capazes de manter a unidade estrutural do país. Com os membros dos clãs dominantes tornando-se mais numerosos, eles se identificavam com seus interesses regionais e não com a manutenção do estado como um todo.

A desintegração do Principado de Kiev era fortemente latente já antes antes da invasão mongol de 1240. Associado ao enfraquecimento dos líderes em Kiev, três outras regiões ascenderam a partir do século XI como importantes centros de poder, formalmente ainda na época da Rússia de Kiev. A primeira região corresponde ao oeste da Rússia de Kiev, na fronteira com a Hungria e com a Polônia, lugar de solos férteis e com fortes contatos comerciais com a Europa central. A segunda região corresponde à cidade de Novgorod, localizada ao norte do país, e que se tornou um importante pólo comercial, principalmente pelos seus contatos freqüentes com o Ocidente, especialmente por meio da Liga Hanseática. A terceira foi a região noroeste, entre as cidades de Vladimir e Suzdal, que controlavam o comércio na área do rio Volga e se tornaram um pólo de poder que viria, futuramente, a se opor à própria capital, Kiev (ver Anexo A).

A primeira região, localizada a oeste de Kiev, era chamada de Galícia-Volynia. Sua importância comercial era fundamental para a Rússia de Kiev, já que esta área era a região de fronteira com a Europa central, especialmente com a Hungria e com a Polônia, sendo, portanto, responsável por boa parte do tráfego comercial com a Europa central. Além disso, sua importância advém do fato de que em 1202 o príncipe Roman, o Grande, conquistou a cidade de Kiev, buscando manter o domínio eslavo na região. Entretanto, no século XIV a região foi dividida entre o Grão-Ducado da Lituânia, a Polônia e a Hungria, sendo que a maior parte de seu território foi incorporada ao Grão-Ducado da Lituânia (HOSKING, 2002, p. 58-62; RIASANOVSKY, 2005, p. 84).

Ainda que fosse um pólo comercial importante já a partir do século XI, até 1136 Novgorod estava submissa à soberania do grão-príncipe de Kiev como sua segunda cidade. Entretanto, nesta data os cidadãos de Novgorod expulsaram um enviado de Kiev e passaram a administrar a cidade de maneira independente, escolhendo seus próprios príncipes por meio da veche, ou seja, de uma assembléia na qual participavam todos os estratos sociais livres. A autonomia de Novgorod seria reforçada mais ainda em 1156, quando a cidade se deu o direito de escolher seu próprio arcebispo sem interferência do metropolitano de Kiev (HOSKING, 2002, p. 62; RIASANOVSKY, 2005, p. 74).

Os interesses próprios da região de Vladimir-Suzdal também eram evidentes ainda no período da Rússia de Kiev: diversos de seus príncipes atacaram Kiev em diversas ocasiões (KAISER; MARKER, 1994, p. 79). O principal ataque foi realizado por Andrei Bogoliubskii em 1169: após pilhar Kiev, tendo roubado inclusive arte religiosa, Andrei retornou a Vladimir e instaurou nesta cidade a capital do Principado de Vladimir-Suzdal. Este ato reforçou o fim do poderio de Kiev como centro dos eslavos, transferindo efetivamente o poder político para a região noroeste do antigo país (HOSKING, 2002, p. 66; RIASANOVSKY, 2005, p. 74).

Anexo A -- Mapa da "Rússia dos Domínios"


(1) Todas as traduções neste trabalho são de responsabilidade do autor do mesmo.

(Continua na próxima postagem.)


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