24 de dezembro de 2007

Formação do estado russo (VI)

(Continuação da postagem anterior.)

Fiodor, sucessor de Ivan IV, era totalmente dependente de seus conselheiros, sendo o principal deles o boiardo Boris Godunov, seu cunhado. O reinado de Fiodor, de 1584 a 1598, é caracterizado por dois principais acontecimentos de suma importância para a consolidação final do estado russo. O primeiro deles diz respeito ao estabelecimento de um Patriarcado da Igreja Ortodoxa em Moscou, o cargo mais alto do mundo ortodoxo. Assim, a Igreja Ortodoxa, que já era materialmente forte, ampliou e aprofundou ainda mais suas raízes como um dos sustentáculos do estado russo: agora toda a estrutura hierárquica eclesiástica -- de indicação de metropolitanos, arcebispos e bispos -- estava nas mãos do Patriarca da Igreja Ortodoxa russa. O segundo acontecimento diz respeito à política externa. Ao norte, a Rússia conseguiu reconquistar os territórios perdidos para a Suécia em 1583 -- fazendo com que suas fronteiras retornassem ao limite anterior à guerra de Ivan IV na mesma região. Ao sul, a Geórgia se tornou um reino vassalo dos russos, o que abriu para estes uma nova fronteira em termos de expansão territorial (RIASANOVSKY, 2005, p. 142-143).

A morte de Fiodor em 1598 e a ausência de um herdeiro natural ao trono deu origem ao chamado "Tempo das Revoltas" ou "Tempo de Problemas" (Smutnoe Vremya), período que vai oficialmente de 1598 a 1613 (ver Anexo E). Godunov convocou uma nova zemskii sobor (assembléia nacional) e foi escolhido como czar em 1598. Seu reinado, contudo, passou por provações logo no início:

Em 1601, seca e fome trouxeram desastres para o povo. As plantações tiveram problemas novamente em 1602 e, também, em nível considerável, em 1603. A fome atingiu proporções catastróficas; seguiram-se epidemias. (...) Estimou-se que mais de cem mil pessoas pereceram apenas em Moscou. Pessoas famintas devoravam grama, cascas de árvores, cadáveres de animais e, em algumas ocasiões, até mesmo outros seres humanos. Grandes grupos de homens desesperados que vagavam e pilhavam o interior, dando início a batalhas com tropas regulares, apareceram e se tornaram um fenômeno característico do Tempo das Revoltas (RIASANOVSKY, 2005, p. 147).

Em meio às revoltas e ao descontentamento da população, surgiu um homem que afirmava ser Dmitrii, filho de Ivan IV, que supostamente havia sido assassinado por Godunov em 1591. Com o apoio da Polônia e de alguns boiardos descontentes com Godunov, o "falso Dmitrii I", como veio a ser conhecido, avançou sobre Moscou em 1604. Contando com a sorte -- Godunov faleceu em 1605 -- e com o apoio de parte da população do sul da Rússia, que via nele a corporificação da dinastia russa, o falso Dmitrii I foi coroado czar em 1605. Após obter o poder, o novo czar removeu dos principais postos estatais e eclesiásticos os partidários de Godunov e trouxe do exílio e/ou retirou da prisão diversos boiardos que faziam oposição ao czar anterior e que agora o apoiavam (RIASANOVSKY, 2005, p. 148-150). Contudo, a sorte do falso Dmitrii durou pouco: os mesmos boiardos que o apoiaram em 1605 passaram a se opor e, em 1606, o czar foi assassinado e sua guarnição polonesa foi expulsa da cidade.

Assumiu como czar o boiardo Vasilii Shuiskii, que reinou de 1606 a 1610. Shuiskii nunca possuiu a devida legitimidade popular para ser czar: até mesmo em Moscou ele tinha pouca ou nenhuma autoridade e somente não foi deposto pelos mais influentes boiardos por não terem ninguém para colocar em seu lugar. Somente a popularidade do seu primo, príncipe Mikhail Skopin-Shuiskii, que liderou suas forças, e a ajuda de soldados da Suécia, cuja assistência foi obtida com a concessão de territórios russos, o preservou por mais algum tempo no trono. Para complicar ainda mais sua situação, surgiu em 1607 um novo falso Dmitrii, sendo chamado de "falso Dmitrii II", que, com o apoio explícito da Polônia, conseguiu criar, ainda que por curto período, um estado paralelo na Rússia, com forte apoio popular, coletando taxas, dando terras e títulos, julgando e punindo como um verdadeiro czar. Apenas no início de 1610 Shuiskii foi capaz de acabar com a ameaça que o novo falso Dmitrii representou (HOSKING, 2002, p. 138; RIASANOVSKY, 2005, p. 152-153).

Se a situação se aliviou por um lado, por outro voltou a ficar complicada: Sigismundo III da Polônia considerou os acordos com a Suécia um pretexto para a guerra, e, em outubro de 1609, sitiou Smolensk. Em julho de 1610 Shuiskii foi deposto por uma assembléia moscovita de clérigos, boiardos e plebeus, e os poloneses passaram a governar a Rússia. A submissão de Moscou ao rei polonês foi o pretexto utilizado pela Suécia para entrar em guerra contra a Rússia também em 1610. Em 1611 Smolensk estava nas mãos dos poloneses; Novgorod nas mãos dos suecos; e Pskov nas mãos de mais um pretendente ao trono russo, o falso Dmitrii III.

Os poloneses eram novamente inimigos dos russos, e eles controlavam Moscou e também uma grande área na parte oeste do país. Os suecos tinham declarado guerra contra os russos após Moscou ter jurado fidelidade a Wladislaw [da Polônia]. Eles avançaram no norte, ameaçaram Novgorod, e logo reclamaram o trono moscovita para seu próprio candidato, príncipe Felipe (RIASANOVSKY, 2005, p. 155).

A ocupação polonesa da capital Moscou finalmente levou a um revigoramento do patriotismo entre os russos. Um novo exército, financiado por mercadores do norte e abençoado pela Igreja Ortodoxa, começou a expulsar os poloneses. Em 1612, os poloneses foram finalmente expulsos de Moscou por um exército sob o comando de Kuzma Minin e Dmitrii Pozharskii. É interessante notar que tal exército se apresentava como o braço político, e não apenas militar, da Moscóvia: "[o exército] aparentemente continha uma assembléia de representantes de diferentes localidades, algo como se fosse uma zemskii sobor itinerante" (RIASANOVSKY, 2005, p. 156). Logo após a expulsão dos poloneses, uma zemskii sobor especial foi convocada, tendo como objetivo a escolha de um novo czar; Mikhail Romanov foi o escolhido, sendo coroado czar em julho de 1613, dando origem à dinastia Romanov que durou até 1917.

O século XVII pode ser considerado como um período de transição entre dois momentos distintos no processo de formação do estado russo: o primeiro momento acaba em 1613, com a criação da nova dinastia russa, e o segundo momento começa em 1682, com a ascensão de Pedro, o Grande ao trono da Rússia e a transformação do país em um império. Este período de transição, no qual houve três czares -- Mikhail Romanov (1613-45), Aleksei Romanov (1645-76) e Fiodor Romanov (1676-82) -- pode ser considerado como o período no qual o estado russo se estabilizou e se fortaleceu como base para o salto que seria dado, posteriormente, por Pedro, o Grande.

O reinado de Mikhail se caracterizou pela tentativa de estabilização da situação após o "Tempo das Revoltas". Mikhail fez a paz com a Polônia e com a Suécia, ainda que, para tanto, tenha perdido diversos territórios para estes dois países. O maior problema enfrentado por Mikhail, entretanto, foi a instabilidade econômica, que ele não conseguiu ver acabada quando de sua morte. Por outro lado, Mikhail era o chefe de "(...) uma monarquia com autoridade ilimitada de um tipo que Ivan IV pretendeu mas nunca foi capaz de atingir. Os boiardos e os clérigos que tinha obstruído Ivan agora apoiavam uma autocracia plena [que fosse capaz de] protegê-los contra rebeliões sociais e invasões estrangeiras" (HOSKING, 2002, p. 152).

O reinado do sucessor de Mikhail foi caracterizado principalmente pela incorporação da Ucrânia ao estado russo em 1654. A Ucrânia estava sob jugo polonês após a união deste estado com a Lituânia, e desde princípios do século XVII havia revoltas naquela região contra a dominação polonesa. Ao se depararem com três opções de submissão -- Polônia, Império Otomano e Moscóvia -- os ucranianos, reunidos em assembléia, decidiram jurar fidelidade a Moscou. Tal submissão deu origem a nova guerra entre a Polônia e Moscóvia, vencida por esta última com apoio dos suecos. O estado russo, mais uma vez, expandia-se territorialmente com o objetivo de controlar as terras que haviam pertencido ao Principado de Kiev. Além da conquista da Ucrânia, outro acontecimento importante durante o reinado de Aleksei foi o cisma da Igreja Ortodoxa que levou, no fim, à submissão da Igreja às vontades do estado, cerceando sua autonomia obtida durante os cinco séculos anteriores (RIASANOVSKY, 2005, p. 165-168). Estava assim aberto o caminho para que posteriormente Pedro, o Grande, pudesse realizar suas reformas do estado russo e fazer da Rússia um dos impérios mais poderosos de sua época.

Anexo E -- Mapa da Moscóvia durante o "Tempo das Revoltas" (1598-1613)


(Continua na próxima postagem.)


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