19 de março de 2008

Sobre Max Weber (III)

(Continuação da postagem anterior.)

Um tipo ideal é uma construção analítica que serve ao investigador como uma ferramenta de mensuração para encontrar similaridades, bem como desvios, em casos concretos. Ele fornece o método básico para um estudo comparativo.

Não se espera que um tipo ideal baseie-se em valores morais. E Weber não os cria baseando-se em médias estatísticas. O tipo ideal envolve ações típicas de conduta relacionada a determinado assunto, e ele nunca corresponde à realidade concreta: está sempre um passo adiante. O tipo ideal é composto por certos elementos da realidade e forma um todo preciso e coerente, que não pode ser encontrado como tal na realidade.

Os tipos ideais permitem aos pesquisadores construírem hipóteses, ligando-as com as condições que colocaram o fenômeno ou o evento em evidência, ou com as conseqüências que seguem o seu surgimento. Como Julian Freund diz, "sendo irreal, o tipo ideal tem o mérito de nos oferecer um mecanismo conceitual com o qual podemos mensurar o desenvolvimento real e clarear os elementos mais importantes da realidade empírica."

Os três tipos ideais de Weber distinguem-se pelos níveis de abstração. Primeiro estão os tipos ideais baseados em particularidades históricas, como as "cidades ocidentais", "a ética protestante" ou o "capitalismo moderno". Refere-se a fenômenos que aparecem apenas em períodos históricos específicos e em áreas culturais particulares. O segundo tipo envolve elementos abstratos da realidade social, como "burocracia" ou "feudalismo" -- encontrados em contextos históricos e culturais. Por último, há um terceiro tipo ideal, o qual Raymond Aron chama de "reconstruções racionais de um tipo particular de comportamento". Todas as proposições na teoria econômica são, para Weber, deste tipo.

Ao contrário do que é dito, Weber acredita na casualidade sociológica e histórica, mas tal casualidade é expressa em termos de probabilidade. Tal probabilidade, entretanto, não possui nada em comum com a "vontade própria" ou com a impossibilidade de previsão das ações humanas. Tal probabilidade deriva dos resultados das ações racionalmente tomadas pelos homens.

Este mesmo tipo de probabilidade é usado nas definições criadas por Weber. A probabilidade é definida por expectativas normais e racionais, que teoricamente seriam tomadas pelos homens.

É importante notar que há, para Weber, uma diferença entre a casualidade sociológica e a casualidade histórica. No primeiro caso, é assumido o estabelecimento de uma relação regular entre A e B, não do tipo "A torna B impossível", e sim do tipo "A é mais ou menos favorável do que B". Já a casualidade histórica determina as circunstâncias únicas que colaboraram com o surgimento de um evento. É importante esta divisão porque, por exemplo, a casualidade histórica perguntará "Quais as causas da revolução bolchevique?", enquanto que a casualidade sociológica envolve questões sobre a economia, a demografia, ou até causas sociais específicas a todas as revoluções ou a um tipo ideal de revolução.

As questões para causas históricas podem surgir através dos "experimentos mentais", como Weber chamava. É algo do tipo "O que teria acontecido se ...?". As casualidades sociológicas são encontradas de maneira semelhante. Só que, além do experimento mental, pode-se fazer um estudo comparativo com outras situações, e então chegar a uma conclusão. Deve-se lembrar que não encontramos a conclusão, e sim uma das conclusões.

É curioso notar que Weber realizou suas pesquisas baseando-se em explicações amplas e estruturais, e não na pessoa atuante. Seu método é posto em prática em todas as suas análises substantivas, seja quando ele fala sobre a queda do Império Romano, seja quando fala sobre a racionalização do mundo moderno.

A discussão weberiana sobre relações de autoridade -- porque os homens acham que têm autoridade sobre outros, além da legitimidade em ser obedecido -- ilustra o uso dos "tipos ideais" na análise e classificação das ações sociais.

Weber definiu três tipos ideais de autoridade: a carismática -- quando a autoridade é devida a alguém por sua extraordinária virtuosidade, seja ética, heróica ou religiosa; a autoridade tradicional -- quando a autoridade é devida a alguém por acreditar-se na santidade da tradição. Este tipo não se baseia em regras impessoais, e sim na vontade da própria pessoa; e, por fim, a autoridade racional-legal -- que se sustenta em bases racionais e depende de regras impessoais que foram legalmente definidas e/ou contratadas.

Deve-se lembrar que estes são "tipos puros", como em todo o trabalho de Weber. Isto significa dizer que, na vida real, eles podem aparecer misturados.

(Continua na próxima postagem.)


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