24 de março de 2008

Sobre Max Weber (V)

(Continuação da postagem anterior.)

Poder, na visão weberiana, é a chance de um homem, ou um número de homens, "realizar seus próprios desejos na ação comunitária, mesmo contra a vontade dos outros". A base para que tal poder seja exercido pode variar consideravelmente, de acordo com o contexto social em questão. Ainda, a origem de tal poder não pode ser restrita a uma só; os homens não aspiram ao poder apenas para enriquecer. "O poder, incluindo o poder econômico, pode ser avaliado 'por si mesmo'. Muito freqüentemente, a aspiração ao poder é também condicionada pela 'honra' social que ele contém."

O interesse de Weber na natureza do poder e da autoridade, assim como sua preocupação com a racionalização, levaram-no a pesquisar o modo de funcionamento das grandes empresas modernas. A organização burocrática é a marca da era moderna. As burocracias são organizadas de acordo com princípios racionais; os escritórios obedecem a uma ordem hierárquica baseada em regras impessoais; os governantes têm sua área de ação delimitada pela alocação metodológica de áreas de jurisdição; promoções são feitas de acordo com qualificações especializadas. É apenas através da centralização do poder político que recursos econômicos podem ser mobilizados. A organização burocrática tornou-se o padrão para a política, tecnologia e economia modernas, e ela é tecnicamente superior a todas as outras formas de administração.

Weber também viu os pontos negativos da burocracia. O principal deles é a impossibilidade de se tratar casos individuais, pois a burocracia iguala todos. Ocorre, portanto, uma despersonalização das ações humanas, ou seja, são removidos o amor, o ódio e qualquer outra atitude pessoal, irracional e incalculável da execução das tarefas. A cultura moderna não pode ter emoções, além de ser estritamente profissional.

A burocratização e racionalização cada vez mais intensas pareciam ser inevitáveis para Weber. O desempenho de cada trabalhador seria mensurado matematicamente; cada homem tornar-se-ia uma pequena peça na máquina. A civilização tornar-se-ia mais perfeita, mais racional, e suas bases seriam muito mais mecanizadas. Mas o quê seria dela?

Weber aponta a alienação como resultado desta burocratização e racionalização crescentes. Ele não acredita no estágio futuro como o mundo da liberdade, ou seja, a alienação não é uma transição para algo melhor. Mesmo permitindo-se acreditar no surgimento de um líder carismático que tiraria a humanidade do curso de sua própria criação, Weber acreditava que o futuro seria uma "jaula de ferro", ao invés de ser o "Jardim do Éden".

Weber acreditava que a expropriação dos meios de produção dos trabalhadores era resultado não do capitalismo em si, mas sim da crescente produção racionalizada e coordenada centralizadamente. Além disto, Weber acreditava que não só os trabalhadores perderam seus meios de produção, mas também os cientistas perderam os meios de pesquisa, os administradores perderam os meios de administração, os guerreiros perderam os meios da violência. E isto não por causa do capitalismo, e sim pela crescente racionalização e burocratização da sociedade. Estas expropriações caracterizariam tanto sistemas socialistas quanto capitalistas. O ser humano, na visão weberiana, não conseguiria se engajar em ações sociais significativas se ele não se juntasse a uma organização de grande porte, na qual ele só seria admitido se sacrificasse seus desejos pessoais e na qual realizaria tarefas específicas.

O mundo moderno foi deixado pelos deuses. O homem racionalizou e tornou calculável e previsível o que antes era governado pela sorte, sentimentos, paixões e pelas convicções pessoais. Esta é a visão de Weber.

Weber buscou traçar o caminho, em seus estudos da sociologia das religiões, pelo qual o homem trocou o procedimento mágico pelo racional na relação do homem com o divino. A ética protestante é o resultado desta racionalização.

Também no campo do direito Weber documentou a racionalização da humanidade. Ele traçou o desenvolvimento da autoridade política dos reis, endeusados por um carisma hereditário, até a dominação fria do Estado moderno, "reinando" dentro dos limites legais e com leis racionalmente escritas.

Até na música Weber notou traços de racionalização. As notas concisas da música moderna -- a padronização rigorosa e a coordenação de uma orquestra sinfônica moderna -- é muito mais "racional" do que a espontaneidade e inventividade das músicas tribais asiáticas.

Weber foi enfático ao opor-se à idéia de que a humanidade seguiu o rumo da História guiada por alguma força dirigente. Ele afirmou que tudo o que foi feito teve por principal objetivo atingir um desejo pessoal. É interessante notar que, quando falava da racionalização e da burocratização da sociedade moderna, Weber "jogava para o alto" sua atenção analítica e dizia que a humanidade estaria presa, no futuro, em uma jaula de ferro criada por ela mesma. É neste sentido que falamos do "desencantamento do mundo" exibido por Weber.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COSER, Lewis A. Masters of sociological thought: ideas in historical and social context. Fort Worth, Texas: Harcourt Brace Jovanovich, 1977.

WEBER, Max. "A política como vocação". In _____. Ciência e política: duas vocações. São Paulo, Cultrix, 1993. Pág. 53-124.

_____. "Conceito de ação social". In _____. Economia e sociedade. Brasília, EDUnB, 1998. Pág. 15-27.

_____. "Os tipos de dominação". In _____. Economia e sociedade. Brasília, EDUnB, 1998. Pág. 139-167.


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