24 de novembro de 2008

Globalização (II)

(Continuação da postagem anterior.)

Keynes, representante da Grã-Bretanha, propôs que o sistema fosse regido por uma moeda única, e que os superávits ficassem guardados em um “Banco Central Mundial”. Tais reservas mundiais poderiam ser utilizadas a qualquer momento por qualquer país para, por exemplo, saldar sua balança de pagamentos, e assim garantir a estabilidade do comércio internacional.

O pensamento americano, representado por White, era contra a proposta de Keynes, pois os EUA achavam que eles seriam os financiadores do “Banco Central Mundial”, pois só eles teriam superávits (lembre-se de que a Europa estava arrasada por causa da guerra e que os PEDs ainda não tinham importância no cenário mundial).

Segundo White, a estabilidade mundial viria com duas instituições financeiras: o FMI e o BIRD. O FMI ajudaria os países com problemas em seus balanços de pagamentos, e o BIRD cuidaria da reconstrução após a guerra e financiaria atividades ligadas ao desenvolvimento.

Apesar de a proposta de Keynes ser mais igualitária, a proposta de White é a que foi aceita. Isto porque apenas os EUA tinham dinheiro para pôr em prática sua proposta. O FMI, então, funciona através de cotas, ou seja, cada país tem direito a um empréstimo de acordo com as cotas que compra, e não simplesmente “pegando” o dinheiro, como propôs Keynes.

Com o passar do tempo, viu-se que a proposta de Keynes era melhor em longo prazo, pois ela acompanharia o desenvolvimento do comércio internacional.

A proposta de White dizia que o FMI poderia intervir e fazer recomendações aos países deficitários, no sentido de ajustarem suas contas internas. Tais recomendações poderiam ser reforçadas por sanções, como por exemplo só ter direito aos empréstimos do Fundo se o país seguir as recomendações.

Entretanto, falhas surgiram, e talvez a principal tenha sido a ilusão de que os EUA teriam um superávit contínuo e crescente. Esta idéia já havia sido rebatida pelo próprio Keynes. A conseqüência disso foi a falta de coordenação, com o mercado financeiro sendo gerenciado pelo FMI e o comercial pelo GATT. Além disso, outras instituições tomaram decisões unilaterais, influenciando o comércio internacional. A grande liquidez do pós-guerra foi outro problema: onde investir o lucro excessivo? Subestimaram-se ainda os acordos regionais e a soberania e o poder estatais.

Os pilares do sistema de Bretton Woods, que eram o FMI e o BIRD, influenciaram bastante o mercado de divisas estrangeiras. Este tinha três funções básicas: primeiro, realizar transferências de poder aquisitivo de um país a outro, através da conversão das moedas; segundo, prover crédito para o comércio externo, através de empréstimos desburocratizados; e terceiro, criar facilidades para evitar os riscos do movimento de câmbio estrangeiro, evitando, por exemplo, ataques especulativos.

O excesso de moeda na Europa acaba indo para os PEDs na forma de investimentos, acelerando o processo de globalização.

Por fim, a Cúpula de Miami buscou o início das conversações para a criação da ALCA. Aqui se destaca a disputa entre EUA e Brasil. Os EUA querem a instalação da ALCA o mais rápido possível, evitando que todo o mercado consumidor da América Latina “caia nas mãos” da União Européia. O Brasil, apoiado pelos países do Mercosul, é contra esta idéia, pois os produtos americanos são mais competitivos, o que traria graves conseqüências à economia nacional. Além disso, defende também que as tarifas impostas pelos EUA aos seus produtos sejam revistas antes de uma total integração.

Segundo Dolan, a globalização é um processo gradual de eliminação de barreiras econômicas e o aumento nas trocas internacionais de mercadorias. Esta definição identifica a globalização como um processo, e não como um fato consumado.

Dito isto, vê-se que o GATT teve um papel fundamental no processo de globalização, através do incentivo ao comércio internacional. Deve-se incluir também as movimentações financeiras.

Outros autores dividem o fenômeno em ativo e passivo, sendo que o papel ativo é executado pelos países importantes, e o papel passivo pelos PEDs. Estes últimos em sua maioria, participam do processo de globalização com produtos agrícolas, em sua maior parte.

Discute-se muito em relação ao fato de a globalização ser real ou ser um mito. Vários itens são passíveis de serem questionados para comprovar sua existência, mas chega-se à conclusão de que ela não existe como fato consumado, pois, entre outros fatores, os aspectos políticos influenciam os econômicos, a prioridade de um país é diferente da de outro, além do fato de que tais conceitos são mais facilmente vistos em teoria do que na prática.

O principal ponto que diferencia globalização de internacionalização é a tecnologia. Assim, desde o século XV a internacionalização vem ocorrendo, mas a globalização só começou a partir da criação de novos componentes tecnológicos que permitiram sua disseminação pelo mundo.

Além disso, a ênfase hoje é no capital especulativo, volátil, que corre o mundo atrás dos maiores lucros fáceis, e não em aspectos produtivos como era até 1914.

As empresas dependem cada vez mais do mercado externo para terem lucro. Apenas o mercado consumidor de seu próprio país já não é mais suficiente. Os mercados financeiros estão fora de controle, com o capital circulando por todo o mundo. A acumulação de renda nos PDs é enorme, mas este capital é altamente volátil.

A globalização, desta forma, é um processo que ainda está ocorrendo e ainda não acabou. É claro que alguns países beneficiam-se mais que outros, mas é assim que funciona: o capital especulativo vai atrás do maior retorno.

Houve um aumento tanto qualitativo quanto quantitativo nos fluxos de capitais através do mundo. O predomínio do setor de serviços no PIB é notório. A mudança do conceito de processo produtivo confirma que estamos passando por outra Revolução Industrial.

O sistema produtivo é determinado pela interação dos agentes econômicos que decidem o quê, quanto e para quem produzir. Não existe estabilidade; o processo está em contínua mudança, e ele não é homogêneo.

Com a abertura dos mercados ao comércio internacional, os empresários viram que os preços de seus produtos não podiam mais apenas ser a soma do custo mais o lucro. A concorrência externa muda o modo de pensar, e o preço é dado pelo mercado. O produtor que se adeqüe a ele.

Os mercados não têm mais fronteiras e a competição é a nível internacional. As empresas têm de ser competitivas para sobreviverem.

O lançamento de novos produtos é uma estratégia para criar novos mercados. Tais produtos, ao mesmo tempo em que trazem um alto grau de tecnologia, têm de ser acessíveis e funcionais, e até mesmo descartáveis; a vida útil de tais produtos é muito curta.

Isto é resultado da globalização. O consumidor sabe quais avanços tecnológicos existem nos outros países e querem tais avanços no seu próprio país. O consumidor quer aparelhos que tornem sua vida mais fácil e prática, e isto é conseguido através da globalização. A globalização banaliza o uso da tecnologia, tornando-a acessível ao consumidor.

Por fim, cabe salientar a disputa entre regionalização e globalização. É dito que a regionalização é uma reação protecionista à globalização, pois o país diminui suas tarifas apenas para os países do seu bloco econômico, e não para todo o mundo. Por outro lado, outros autores dizem que os dois conceitos não são contraditórios, dependendo apenas da maneira como ocorrem.

O curioso é que, atualmente, o maior defensor do livre comércio, que é os EUA, deseja criar um grande bloco regional, a ALCA. O objetivo é manter a hegemonia americana na América, evitando a aproximação da União Européia. A proposta, contudo, propõe um regionalismo aberto, sem a introdução de barreiras protecionistas a países de fora do bloco. Mantém-se, assim, o apoio americano à liberalização do comércio internacional.

(Continua na próxima postagem.)

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