10 de novembro de 2008

A Rússia e a paz mundial (IV)

(Continuação da postagem anterior.)

O presidente dos EUA, Jimmy Carter, foi quem iniciou “para valer” negociações a respeito da redução de armas nucleares. Tentou-se a realização de um novo acordo – o SALT II –, mas o mesmo não foi aprovado no Congresso dos EUA. Mais uma chance para pôr fim à Guerra Fria fora perdida.

É interessante notar, contudo, que o acordo SALT II era dúbio: se após três anos nada fosse realizado, os EUA poderiam colocar mísseis na Europa ocidental apontados para a União Soviética. Quando o acordo se tornou interessante – precisamente em 1979, quando a URSS invadiu o Afeganistão –, o Congresso americano aprovou o acordo.

Em 1980, um movimento pró-reformas eclodiu na Polônia. O movimento era organizado pelo grupo Solidariedade. O líder polonês impôs a corte marcial, suspendeu os direitos civis e usou a força para coibir as manifestações.

Também em 1980 toma posse o novo presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Sua primeira medida no que se refere à Guerra Fria foi aumentar o orçamento militar e incentivar a corrida armamentista, afirmando que a única forma de lidar com a URSS era estando em uma posição de força. Lançou o programa chamado “Iniciativa de Defesa Estratégica”, mais conhecido como “Guerra nas Estrelas”. Andropov, então secretário-geral do PCUS, afirmou que as iniciativas norte-americanas de passar à frente dos soviéticos eram fúteis.

Em 1985, toma posse como secretário-geral do PCUS Mikhail Gorbachev, que assume envolto em uma “aura” de mudança. Gorbachev logo anuncia sua intenção de parar com a corrida armamentista, e mudanças importantes aconteceriam dentro do contexto da Guerra Fria.

O fim da União Soviética

Em novembro de 1985, os líderes das duas superpotências encontraram-se em Genebra. Saíram de lá sem um acordo definido, mas uma nova reunião fora marcada para Reikjavik, no ano seguinte. Na reunião ocorrida na capital da Islândia, Reagan e Gorbachev também saíram sem um acordo – mas cada delegação percebeu que as discussões transpuseram uma linha histórica, pelo teor das propostas apresentadas.

Este foi apenas um dos acontecimentos que marcaram o início do desmembramento da União Soviética. A causa principal da queda do comunismo foi a demora em se implantar os benefícios advindos da Terceira Revolução Tecnológica e Industrial: enquanto os países ocidentais se beneficiavam com estes resultados, a União Soviética mantinha tais desenvolvimentos tecnológicos aplicados apenas à área militar. A não aplicação nas indústrias, por exemplo, fez a URSS ficar atrás na corrida tecnológica, e este foi o principal motivo que fez a União Soviética se esfacelar. A tentativa de Gorbachev, com a Perestroika, de reestruturar o Estado soviético, foi infrutífera, devido à solidez do sistema.

A partir de 1988, diversos acontecimentos mostraram o que viria dali para frente, devido às políticas da Perestroika e da glasnost, implantadas por Gorbachev. Em 1988, a Hungria abriu suas fronteiras com a Áustria, acabando com a “Cortina de Ferro”. Em 1989, na Polônia, ocorreram as primeiras eleições livres, com vitória esmagadora do Solidariedade – sindicato organizado pelos trabalhadores. Neste mesmo ano, houve a queda do muro de Berlim, devido a manifestações na Alemanha Oriental. Também na Tchecoslováquia o Partido Comunista perdeu o poder, e na Romênia o líder comunista Nicolae Ceausecu e sua esposa foram assassinados.

Em 1990, foi a vez dos Estados bálticos se rebelarem. Em apenas dois meses, as três repúblicas bálticas declararam sua independência. Gorbachev, que por problemas internos havia associado-se à linha dura, ordenou a repressão dos movimentos separatistas, mas recuou ao ver milhares de pessoas protestando nas ruas contra as ações militares.

Também em 1990, Gorbachev enfrentava problemas internos. Ele propôs eleições livres na URSS, e se defrontava com duas tarefas difíceis: reformar o governo e a economia e, ao mesmo tempo, manter unidas as repúblicas que compunham a União Soviética. Além disso, havia ainda o problema das próprias repúblicas soviéticas, como a Rússia e a Ucrânia, que afirmaram a preponderância de suas leis sobre as leis soviéticas. Boris Yeltsin, presidente da Rússia, usou o descontentamento popular em relação à economia para enfraquecer Gorbachev e o centro.

Gorbachev tentava de todas as formas manter a União Soviética, primeiro propondo um novo governo central, depois um novo Tratado de União e, finalmente, uma nova União das Repúblicas Soviéticas Soberanas, mas nenhuma dessas idéias vingou. Em abril de 1991, a Geórgia declarou sua independência, e Gorbachev mudou novamente, politicamente falando: isolou-se da linha dura e formulou uma reforma com os líderes de nove repúblicas. Nada disso adiantou.

Em agosto de 1991, ocorreu um golpe de Estado na União Soviética. Membros da linha dura pediram que Gorbachev declarasse estado de emergência e, com a resposta negativa do presidente, prenderam-no em sua casa de férias na Criméia. O “Comitê de Emergência” passou o poder ao vice-presidente Gennadi Yanayev, e ordenou que tropas ocupassem Moscou.

Contudo, vários soldados e civis recusaram-se a acatar as ordens do Comitê de Emergência e, sob o comando de Yeltsin, resistiram à invasão da Casa Branca – sede do parlamento russo. O líder do Comitê e chefe da KGB, Vladimir Kryuchkov, chamou Yeltsin e admitiu a derrota. Yeltsin trouxe Gorbachev de volta a Moscou, mas a União Soviética mudara muito nos três dias de golpe – mais do que Gorbachev podia imaginar.

Após o golpe, Gorbachev afirmou sua convicção no Partido Comunista. Isto não era o que as pessoas queriam ouvir, e as coisas pioraram quando ele teve de ler ao vivo na televisão, sob pressão de Yeltsin, documentos mostrando que os seus aliados comunistas, membros do seu governo, estavam por trás do golpe.

Em 8 de dezembro de 1991, os presidentes da Rússia, Bielo-Rússia e Ucrânia assinaram um documento extinguindo a União Soviética e criando a Comunidade de Estados Independentes. Em 25 de dezembro, Gorbachev anunciou à população da URSS e do mundo que a União Soviética deixava de existir. A Guerra Fria havia, finalmente, acabado.

(Continua na próxima postagem.)

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