14 de agosto de 2007

A Idade Média não foi a "Idade das Trevas"

Ontem, ao dar aula de Metodologia Científica e fazer um retrospecto de quando e onde o pensamento racional surgiu, um aluno falou que a Idade Média havia sido a “Idade das Trevas”. Espantei-me com tal comentário, pois há muito tempo não o escutava e achava que o mesmo já houvesse sido banido do ensino médio. No entanto, ao conversar com o aluno durante o intervalo e questioná-lo sobre o assunto, o mesmo me disse que foi assim que lhe foi ensinado no ano passado – que a Idade Média havia sido a Idade das Trevas porque, naquele período, “nada de novo aconteceu”.

Por que a Idade Média ganhou este “apelido”? A razão é muito simples: a partir do século XVI, e especialmente a partir do século XVII, surgiram diversos pensadores europeus que criaram tratados e escreveram livros sobre os mais diversos assuntos. Concomitantemente, houve o ressurgimento da busca do “belo” nas artes, simbolizado pela reprodução, em seus mínimos detalhes, do corpo humano nas diversas pinturas conhecidas (abaixo uma delas, de Leonardo Da Vinci, cujo nome eu não me lembro). Tudo isso fazia parte do movimento intitulado “Renascimento”, um movimento cultural considerado como o marco do final da Idade Média e o início da Idade Moderna.

Tela exposta no Museu Hermitage, em São Petersburgo, Rússia

Além de atingir a filosofia, as artes e as ciências, houve no Renascimento uma ampla gama de transformações culturais, sociais, econômicas, políticas e religiosas que caracterizam também a transição do feudalismo para o capitalismo. Nesse sentido, o Renascimento pode ser entendido como um elemento de ruptura, no plano cultural, com a estrutura medieval, sintetizando um novo modo de enxergar o mundo que deu origem à Idade Moderna e lançou as bases para a Idade Contemporânea.

O que o Renascimento tem a ver com a “Idade das Trevas”. Tudo. Afinal de contas, a expressão “Idade das Trevas” foi cunhada justamente neste período renascentista, quando se acreditava que, durante a Idade Média, nada de novo surgiu, nada de novo foi originado. Além disso, cunhou-se a expressão por acreditar-se que, durante tal período, o conhecimento adquirido pelos indivíduos fosse única e exclusivamente baseado na fé e, portanto, não seria um pensamento “iluminado pela razão” (tanto é que posteriormente, no século XVIII, surgiu na Alemanha, como conseqüência direta do movimento renascentista, o “Iluminismo”, entendido como um movimento intelectual que enfatizava a razão e a ciência como formas de explicar o universo). Assim, a Idade Moderna, recém-nascida, seria tão “iluminada” quanto o período clássico, no qual a razão era a base da maioria das decisões cotidianas de todos os cidadãos – como já dito, em oposição à base na crença, característica da Idade Média.

Entretanto, a Idade Média não foi, como geralmente se pensa, um período “morto” no que diz respeito ao desenvolvimento econômico, político, social, cultural, científico e tecnológico. Abaixo faço uma citação relativamente longa de trechos disponíveis no site da Wikipédia (com algumas correções e mudanças):

A Europa Ocidental do início da Idade Média era pouco mais que uma manta de retalhos de populações rurais e tribos bárbaras. Perdeu-se o acesso aos tratados científicos originais da antiguidade clássica (em grego), ficaram apenas versões resumidas, e até deturpadas, que os romanos tinham traduzido para o latim. A única instituição que não se desintegrou juntamente com o falecido império, a Igreja Católica, manteve o que restou de força intelectual, especialmente através da vida monástica. O homem instruído desses séculos era quase sempre um clérigo para quem o estudo dos conhecimentos naturais era uma pequena parte de sua escolaridade. Esses estudiosos viviam numa atmosfera que dava prioridade à fé e tinham a mente mais voltada para a salvação das almas do que para o questionamento de detalhes do universo físico.

Em alguns aspectos, no século IX, o retrocesso causado pelas migrações já estava revertido. No século X ocorre a contenção das últimas ondas de invasões estrangeiras. E por volta de 1100 d. C. ocorre uma revolução que combinou renascimento urbano e comercial, ampliação de culturas e fronteiras agrícolas, crescimento econômico, desenvolvimento intelectual e grandes evoluções tecnológicas. Começam a ser abertas novas escolas ao longo de todo o continente, inclusive em cidades e vilas menores. Por volta de 1200 são fundadas as primeiras universidades – Paris, Coimbra, Bolonha e Oxford – (em 1500 já seriam mais de 70). Começa um forte movimento de tradução de documentos em língua árabe e grega, que tornam o conhecimento do mundo antigo novamente disponível para os eruditos europeus. Tudo isso possibilitou um grande progresso em conhecimentos como a Astronomia, a Matemática, a Biologia e a Medicina.

Causavam espanto e admiração inovações tais como grandes relógios mecânicos que transformaram a noção de tempo nas cidades. Presenciaram-se descobertas como as dos óculos, em 1285, e da prensa móvel, em 1448. Houve também muitas inovações na forma de utilizar os meios de produção, com as técnicas de serralheria e incisão de pedras, a fundição de ferro e os avanços nas técnicas de construção aplicadas ao estilo gótico. No setor agrícola, temos o desenvolvimento de ferramentas como a charrua, melhorias em carroças e carruagens, arreios para animais de carga, e a utilização de moinhos d'água. Avanços em instrumentos como a bússola e o astrolábio, na confecção de mapas e a invenção das caravelas tornaram possível a expansão marítimo-comercial Européia na Idade Moderna.

Os avanços obtidos na óptica logo iriam gerar aparelhos como o microscópio e o telescópio, que, juntamente com a prensa móvel (outro fruto medieval), são vistos como os equipamentos mais importantes já criados para o avanço do conhecimento humano. Mas a herança mais importante do período provavelmente foi o nascimento e multiplicação das universidades, juntamente com o surgimento das primeiras sementes da metodologia científica contemporânea.

A Idade Média surge-nos, em termos bélicos, como um período de grandes desenvolvimentos tecnológicos, essencialmente provindos de dois grandes laboratórios, o Médio Oriente e a Península Ibérica. As duas zonas, que desde muito cedo se tornaram palcos de violentas batalhas entre mouros e cristãos, fazem com que a prática, a filosofia, a tecnologia e a própria gênese da guerra evoluam. Temos que ter consciência que os termos cruzada e jihad surgem nesta época, e embora ambas tenham um significado extremamente semelhante, são dois paradigmas de uma realidade muito peculiar.

As citações acima se referem apenas a poucos exemplos do desenvolvimento científico e tecnológico de maneira geral, além de alguns comentários sobre a área militar. Não se deve esquecer, contudo, do desenvolvimento político, econômico, cultural, social, filosófico e artístico do período. Muitos dos equipamentos e das instituições que possuímos hoje surgiram durante a Idade Média e foram aperfeiçoados de lá para cá. É, portanto, um grande equívoco acreditar que, neste período de mil anos, nada de novo foi produzido; ao contrário, as bases de todo o desenvolvimento cultural, científico e tecnológico dos dias de hoje surgiram justamente durante a Idade Média, tornando-a um período tão fértil de idéias -- ou tão "iluminado" -- quanto qualquer outro.


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