7 de outubro de 2007

As relações da mídia com a política (I)

A partir de hoje, estarei iniciando uma série relacionando mídia e política. Colocarei dois resumos de dois textos falando especificamente das eleições de 1989 para presidente e a influência da mídia em tal eleição -- considerada paradigmática por todos que estudam o tema.

A TELEVISÃO BRASILEIRA NAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 1989: CONSTRUINDO UM PRESIDENTE

Venício A. de Lima

As eleições presidenciais de 1989 foram um marco na história política do Brasil. Devemos levar em consideração não apenas o fato de que foram as primeiras eleições após 25 anos do golpe de Estado, e quase 30 anos após da última eleição presidencial. Além disso, alguns pontos merecem ser destacados, como por exemplo o fato de a eleição realizar-se em dois turnos, de ser permitido o voto de analfabetos, além da influência da televisão na exposição dos candidatos.

TELEVISÃO: O FATOR-CHAVE
O autor defende a idéia de que Fernando Collor de Melo elegeu-se presidente em 1989 através do cenário político de representação que foi construído na e pela mídia, especialmente através de novelas, notícias, pesquisas e marketing. Collor utilizou os meios disponíveis para identificar-se com o cenário político, fazendo o público acreditar que ele possuía o "currículo ideal" de um candidato. Ele passou a idéia de que era o único que poderia salvar o país.

MÍDIA E POLÍTICA CONTEMPORÂNEA
Pouco foi explorado em relação ao papel da mídia na política contemporânea. Prefere-se analisar as instituições políticas "clássicas", como partidos políticos, o Estado, ou então determinados tópicos como o autoritarismo e transições de regimes, enquanto que as comunicações são relegadas a segundo plano.

Esta mentalidade começou a mudar no fim dos anos 60 e início dos anos 70. O surgimento de uma mídia poderosa tornou possível um crescimento da mesma no campo dos processos eleitorais e políticos. Os homens entram em contato com o poder político através da televisão. É o mundo através do qual nós pensamos sobre política, sobre diversão, notícias, sobre tudo.

Argumenta-se que hoje a realidade é substituída por imagens criadas pela mídia. A televisão passa a ocupar a posição central como uma máquina do regime de representação, pois ela constitui a mais verdadeira fonte de notícias, informação e entretenimento. Além disto, a televisão desenvolveu características próprias, que lhe trazem grande audiência, como as novelas.

Como a mídia tanto constrói quanto reflete os diferentes cenários de representação em questões de classe, raça, gênero e identidade, ela é então capaz de "reconstruir" a política. A televisão define a agenda temática e estabelece os limites estruturais dentro dos quais todo o processo eleitoral será realizado. As novelas, notícias, comédias, e assim por diante é que determinam as chances de sucesso ou fracasso de um candidato. A mídia pode apresentar um candidato como mais ou menos capaz na execução do cargo a que se propõe.

A TV GLOBO E A POLÍTICA BRASILEIRA
A televisão é o principal meio de comunicação no Brasil. O número de televisores é muito maior que o número de rádios e/ou de jornais ou revistas em circulação. Das emissoras de TV abertas, a que tem maior abrangência em termos de território nacional, e a que tem a maior audiência, é a TV Globo.

Nas eleições de 1989, não é difícil identificar a posição do império Globo e seu papel importante na articulação de interesses de um setor significante da sociedade brasileira. As Organizações Globo deixaram claro que não apoiavam os candidatos progressistas, Brizola e Lula, e também exibiram um perfil do seu candidato ideal: politicamente conservador e "moderno" em política econômica, que favorecesse a privatização e a abertura total a investimentos e comércio exteriores. Em julho de 1989, Roberto Marinho deixou claro sua preferência por Collor.

Collor tinha laços com a Globo desde 1978, quando tornou-se presidente das Organizações Arnon de Mello, que é o maior grupo multimídia de Alagoas e que controla a TV Gazeta, afiliada da Rede Globo. Ele tinha, desta forma, laços comerciais e pessoais com o império Globo, e não foi surpresa determinadas ações tomadas pela Rede Globo no sentido de beneficia-lo.

AS NOVELAS
Segundo Venício A. de Lima, as novelas exibidas na Rede Globo, entre 1988 e 1989, contribuíram e muito para a consolidação da imagem de Fernando Collor. Basta lembrarmo-nos de que as novelas "gastam" mais ou menos quatro horas da programação diária da empresa; além disso, elas obtêm altos índices de audiência, a qual é composta de indivíduos das mais diversas classes sociais. Ainda, as novelas têm o imenso poder de constituir e organizar uma representação específica da realidade.

As novelas que mais causaram influência na população foram "Vale Tudo", "O Salvador da Pátria" e "Que Rei Sou Eu?". A história básica das três era simples: retratavam um Brasil aonde a corrupção era “gerenciada” por políticos, além de mostrar a própria política como um espaço social contaminado. A solução para tais problemas não viria de políticos tradicionais, pois os mesmos eram tão corruptos quanto aqueles que detinham o poder. Todos foram transformados em "marajás", ou seja, em indivíduos corruptos, gastadores, incompetentes e que não queriam trabalhar. No final da trama, contudo, surgia um "herói" jovem, desconhecido e moderno, um verdadeiro "salvador do país".

(Continua na próxima postagem.)

Referências bibliográficas

LIMA, Venicio Artur de. Comunicacion y politica en America Latina: el caso brasileno. Brasilia: Ed Do Autor, 1993.


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