5 de outubro de 2007

Lembranças de 1848 (II)

Em três partes, apresentarei aqui as idéias principais de Tocqueville, filósofo francês, sobre a Revolução Francesa.

Na região da Normandia, Tocqueville nota que a percepção popular sobre os acontecimentos de Paris é um tanto quanto diferente: as pessoas não se preocupam muito com o que lá acontece, pelo fato de serem agricultores. Além disso, as notícias demoram a chegar a tal região. Entretanto, quando percebem que poderá haver aumento de impostos, além da paralisação do comércio e, principalmente, quando souberam que se atacava o princípio da propriedade, aí sim os habitantes desta região perceberam que era algo mais do que a queda de Luís Felipe.

Tocqueville nota que os agricultores daquela região se uniram, todos, para juntos lutarem contra medidas que porventura pudessem prejudicá-los. Mesmo assim, há uma certa resignação, no sentido de achar que a República é o único regime para a França. Contudo, os agricultores pretendem reagir à demagogia parisiense, e para tanto pretendem ir às eleições e votar em "inimigos" do poder central instalado em Paris. O voto era um meio menos arriscado de enfrentar este poder.

A estratégia de Tocqueville é diferente da estratégia da maioria dos outros candidatos, que ele chama de "ambulantes": ele se recusa a falar em público e a responder às perguntas feitas em relação às suas propostas. Publica uma circular, que é distribuída em todo aquele departamento, onde diz que, da mesma forma que defendeu as leis na Monarquia, assim o fará agora na República. Condena uma república ditatorial exercida em nome da liberdade. Participa de um “debate” entre ele e os outros concorrentes da região, no qual, segundo ele próprio, sai "triunfante".

Tocqueville afirma que é tanto pelos riscos quanto pelas glórias que um cargo na Assembléia Nacional trazia que ele estava ali se candidatando. Ganhara os agricultores com a circular e os operários com seu discurso em um jantar onde, segundo ele, vingara-se de um ex-colega que abusara do poder.

Com a aproximação das eleições gerais, as notícias vindas de Paris diziam que a mesma estava caindo nas mãos dos socialistas armados. Por isto, a guarda nacional estava de prontidão, no sentido de evitar qualquer manipulação eleitoral destes socialistas em relação à população votante. Também as províncias fortaleciam-se cada vez mais, em vista do perigo.

No dia da eleição, todos os votantes -- homens com mais de vinte anos -- puseram-se em fila, dois a dois, seguindo a ordem alfabética. Pediram para que Tocqueville fizesse um discurso, que foi feito sem problema algum e, após o mesmo, os homens votaram.

(Continua na próxima postagem.)

Referências bibliográficas:

Tocqueville, Alexis de. Lembranças de 1848. São Paulo, Companhia das Letras, 1991. Cap. 4.


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