2 de novembro de 2007

Um dia vendo as “Duas Caras” da Globo

Recebi o texto abaixo por e-mail nesta semana. Apesar do tema fugir às minhas últimas postagens, que falam sobre a ideologia socialista, achei interessante publicar aqui o texto porque ele se relaciona diretamente com o conceito de ideologia e sobre como todos nós, queiramos ou não, somos cotidianamente submetidos às mais diversas ideologias sem mesmo nos apercebermos no fato.

Um dia vendo as “Duas Caras” da Globo

Por Renata Figueiredo Moraes (*)

Última segunda-feira de outubro, calor no Rio de Janeiro, caos no trânsito e o início de uma semana com feriado na sexta-feira. Esse é o panorama do dia em que assisti a novela das oito da Globo, chamada "Duas Caras". Dentre os assuntos tratados nesse capítulo da novela, que eu não acompanho e por isso não sei os nomes das personagens, estão desde favela no Rio de Janeiro, passando por Paris até a discussão sobre o ensino superior no Brasil.
Estranho se não fosse por um detalhe: tudo tem um sentido muito claro que começa a ser mostrado pela Globo não apenas na novela, mas em toda a sua grade de programação, desde os telejornais do dia, da noite e nas novelas que dentre diversão e coisinhas para distrair o telespectador tem quase que uma doutrinação. Ou, como disse Heitor Reis nesse mesmo fazendomedia.com, manipulá-los é sempre um bom negócio.

Vamos aos assuntos tratados apenas nesse dia, 29 de outubro:

A personagem de Suzana Vieira, que na novela é dona de uma Universidade, foi à Paris convencer a filha, Aline Moraes, a se tornar reitora da universidade, cargo vago após a morte do marido. Por um acaso do destino, em plena Paris, Suzana encontra José Wilker, grande especialista em educação e o chama para conversar. O capítulo de segunda foi a conversa entre os dois e o drama de Suzana porque sua filha não quer assumir o cargo, obviamente quer continuar em Paris, quem não quereria.

Entre um vinho francês e outro, o personagem do Wilker diz sua opinião sobre a educação no Brasil após um longo estudo na Europa: “o governo brasileiro não tem mais condições de investir no ensino superior e por isso deveria haver um investimento ‘pesado’ do setor privado e os grandes empresários precisariam ver essa área como investimento”. A solução para o estudioso Wilker era o setor privado na educação superior. Obviamente Suzana concorda na mesma hora e o chama para ser reitor da sua universidade.

Fiquei imaginando a dona de casa que vê a novela pensando: realmente, ensino privado é a solução, não é verdade que escola pública está um horror? Ainda mais depois que o *Jornal Hoje*, também de segunda-feira, divulgou uma pesquisa dizendo que as camadas mais pobres gastam mais com ensino que os ricos, e um dos argumentos era exatamente esse: devido à falência do ensino público, os menos favorecidos estão fazendo sacrifícios para pagar os estudos dos seus filhos.

Segundo a pesquisa, os mais pobres gastavam 9% da renda com os estudos, enquanto que os ricos 2,5%. Mas esqueceram de ver que porcentagem era essa, baseada em que faixa salarial. Enfim, como sempre, apenas jogaram uma informação para reafirmar uma idéia antiga, de que educação pública está falida ou não tem valor nenhum para aqueles que estudam, enquanto universidade pública é um gasto desnecessário já que os seus estudantes são ricos. Quem nunca ouviu isso?

Ainda no mundo dos ricos da novela e no mesmo capítulo da segunda-feira, enquanto eu estava deitada no meu sofá lendo uma revista, surpreendeu-me o seguinte diálogo: uma dondoca, personagem da Letícia Spiler e também do núcleo rico-riquíssimo, discutia com o filho que não queria ir ao curso de inglês com o argumento de que queria ser jogador de futebol e por isso não precisaria aprender a língua.

Mas na resposta ao filho já adolescente a dondoca diz: “se você quisesse ser presidente da República realmente não precisaria falar inglês, mas para ser jogador de futebol precisar aprender também o espanhol”. E aí lembra a existência de grandes clubes europeus com jogadores bilíngües e se empolga com a idéia de ter um filho jogador de futebol, obviamente jogando na Europa. É, caríssimos... A novela quer dar realmente a verdadeira lição sobre educação, além de cutucar o presidente da República. Daqui a pouco colocam algum movimento do tipo “Cansei” de alguma coisa.

Para encerrar o mundo dos ricos da novela “Duas Caras”, temos uma rápida aparição de Stênio Garcia recuperado da bebedeira que o fez expor seu preconceito contra um negro, personagem do Lázaro Ramos, que foi convidado pela personagem, branca, da filha de Stênio para um jantar. A cena ocorrida nos capítulos anteriores, um pouco forçada e medíocre – principalmente na defesa de que os negros contribuíram muito para a história do Brasil, com exemplos na música, na culinária e nos esportes (esse foi o argumento de um personagem branco e judeu que se identificou com a dor daquele que sofria o preconceito) – ainda rendia comentários para esse núcleo que estava mais preocupado com as repercussões que isso traria para o famoso advogado do que para uma discussão real sobre preconceito racial.

Para piorar a situação dessa família, há um outro jovem e também filho de Stênio Garcia que não pára de assediar a empregada negra da pior forma que um homem pode assediar uma mulher, fazendo dela um objeto sexual e coagindo-a quanto a posição que ambos ocupam na sociedade, ela empregada, ele patrão. Segundo a mãe desses filhos, eles têm uma grande queda para afro-descendentes.

É terrível ver como a Globo quer tratar da questão do preconceito racial tocando sempre na mesma tecla: empregadas negras assediadas, negros pobres se atrevendo a entrar no mundo dos ricos brancos e personagens negros vivendo em favelas. Até quando teremos que ver novelas reforçando ainda mais os estereótipos? Além disso, essa abordagem numa novela das oito só serve para legitimar a Globo perante a sociedade e redimi-la da falta de abordagem sobre o tema. Agora ela pode dizer que abordou não só o tema como o trouxe a tona em plena novela das oito.

Na verdade, o desserviço da Globo em relação à questão racial nas novelas não começou em "Duas Caras". Atualmente a novela "Da cor do pecado" é reprisada no horário da tarde e só vem contribuir para reforçar ainda mais a idéia de negra pobre, branca rica e mocinho cedendo à tentação da cor. Além de ter todas as agressões verbais da branca rica que não tem outro argumento que não seja o de atacar a negra pobre com expressões racistas. Bem, pelo menos ninguém pode falar que a Globo não tratou disso... É... Belo tratamento...

A idéia de "Duas Caras", principalmente sua abertura que quer mostrar uma certa contradição entre riqueza e pobreza vivendo juntas, é desmentida a cada capítulo, ou será que alguém acha que a Globo tem duas caras? Eu só vejo uma: a da hipocrisia, a do conservadorismo, a branca rica que não suporta ver ascensão social nem dos pobres muito menos dos negros.

Além de todos esses horrores essa novela ainda conta com o personagem de um jovem com talento para a culinária, mas discriminado pela família por isso (faz parte do núcleo pobre da favela porque se fosse no rico certamente seria retratado como um grande chef e sua masculinidade não seria contestada por isso); uma garota de programa que se disfarça de enfermeira, o que já deixou em alerta o conselho dessa profissão; uma favela cenográfica tão limpa que certamente quando tiver uma enchente não vai alagar; mais uma vez um núcleo de garotas de programa e tantas outras coisas que vão além do espaço previsto para esse texto, e já discutidas em outras ocasiões.

Até o fim da novela quantas caras mais a Globo vai mostrar?

(*) Renata Figueiredo Moraes é historiadora, que não vê novelas, porém, não tem como não saber daquilo que se passa na sua sala.

Publicado em <http://www.fazendomedia.com> no dia 30/10/2007.


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