6 de novembro de 2007

Voltando a falar de Marx (III)

Atualidade da revolução

A primeira metade do século XIX estava coberta por idéias revolucionárias, e Marx, em uma de suas profecias, no ano de 1848 previa uma guerra mundial para os próximos anos, como uma insurreição que considerava inevitável por parte da classe operária inglesa. A crise de 1857 não provocou a revolução esperada tanto por Marx quanto por Engels, porém provocou mudanças de ordem importante no cenário político mundial – para pouco citá-las temos a unificação da Alemanha e da Itália, o fim do Império Francês e a decadência do Império Austro-Húngaro.

A teoria da revolução de Marx é muito mais do que as idéias de um jovem e sonhador Marx, ela é a própria lógica das contradições do sistema capitalista. Por isso Marx afirma que existe uma identidade entre a teoria e prática, já que o capitalismo fatalmente estaria condenado a extinção. A teoria de Marx está totalmente envolvida pelo jogo de relações entre a economia, as classes e a política, e em sua teoria de classes ele afirma que a burguesia somente existirá se a mesma tiver a capacidade constante de alterar as relações de produção e por decorrência as relações sociais.

Marx mostra a dificuldade de uma classe em manter a ordem social política afirmando que mal a burguesia conseguiu encerrar seus conflitos com a ordem social vigente, surgiu uma nova classe interessada em derrubá-la, a operária. A revolução proletária, por sua vez, logo iria deparar-se com uma nova ordem que buscaria derrubá-la e assim sucessivamente. Esse ciclo somente chegaria ao fim caso não houvesse classes antagônicas lutando permanentemente pelo poder. Para Marx, as revoluções não poderiam surgir em épocas de prosperidade, admitindo aqui ser revoluções transformações sociais de alcance universal, ou seja, transformações que afetam toda a ordem social.

Emancipação social e emancipação política

Em sua obra de juventude, Marx deixa claro sua insatisfação com o idealismo hegeliano, e essa sua insatisfação está totalmente relacionada à sua crítica às revoluções burguesas e à necessidade de uma nova revolução. Marx faz a crítica das revoluções burguesas ao apontar as limitações da emancipação política e ao defender a necessidade da emancipação social, ou seja, defender a revolução social. Para Marx, a emancipação política somente pode se realizar se estiver no âmbito da emancipação social. Vendo dessa forma, os direitos do homem, garantidos pelas revoluções burguesas, não apontam uma igualdade social e sim uma desigualdade tanto econômica quanto social.

Marx afirma que somente aquele proletariado que tiver a capacidade de se situar em uma classe fora do sistema de classes poderá realizar a tarefa de emancipação própria junto à sociedade. Assim a revolução proletária é capaz de proporcionar uma igualdade real diferente daquela igualdade ilusionista proposta pelas revoluções burguesas, e nesse sentido somente a revolução do proletário seria capaz de promover a verdadeira democracia.

A classe que possui o controle sobre os meios de produção, por conseqüência, possui o controle sobre os meios de produção intelectual, e as idéias predominantes são simplesmente as idéias sugeridas pelas classes dominantes. É desta forma que a burguesia utilizar-se-ia de todo um aparelho ideológico para convencer o proletariado de que sua situação é a de um conforto social. Esse conforto social sugerido pelas ideologias da classe dominante é para Marx um dos maiores problemas que impedem a revolução proletária, pois a classe proletária somente poderia avançar rumo a uma revolução caso criasse uma identidade própria como classe. Essa identidade é sem duvida abafada pelas ideologias dominantes, que atuam de modo a garantir a ordem social vigente e evitar qualquer forma de revolução.

A transição para o socialismo

Para Marx, o estado moderno não é mais do que um aparelho responsável pela administração dos anseios da classe burguesa, e partindo desse pressuposto o primeiro passo da revolução operária é a elevação do proletário à condição de classe dominante. Após esse passo o estado mudaria totalmente sua função: deixaria de garantir os desejos da burguesia para tirar desta os meios de produção e garantir a todos a possibilidade de possuir, mesmo que em pequena parcela, os meios de produção, pois sendo do estado esses meios, e a sociedade sendo o estado, todos teriam a capacidade de controlar os meios de produção. O fim do estado somente viria após um longo período em que o desenvolvimento das forças produtivas levaria ao fim as diferenças de classe. Com as palavras de Marx, "o socialismo é uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um será a condição do livre desenvolvimento de todos" (MARX; ENGELS, 1999, p. 61).

A Comuna de Paris foi para Marx o exemplo da revolução na qual ele se inspirava. A Comuna fora a reação a tudo aquilo que o estado criara como ordem. No lugar do exército a Comuna estabelecera a milícia (o povo armado); no lugar da polícia e da burocracia estabeleceu-se a entrada de funcionários eleitos; no lugar dos deputados, os conselheiros municipais eleitos por sufrágio universal; os magistrados e os juízes tinham que ser eleitos e todos que desempenhavam cargos públicos recebiam salários de operários; além da separação da Igreja do estado, expropriando os bens da Igreja e obrigando os padres a voltarem a viver das esmolas dos fiéis, assim como os apóstolos. A Comuna era essencialmente o governo da classe operária.

Por outro lado, o exemplo que tivemos da União das Repúblicas Socialista Soviéticas, como anteriormente aqui fora mencionado, não pode ser considerado a ilustração prática do pensamento de Marx, embora nele tenha em grande parte se fundamentado. O que no regime socialista soviético ocorreu, assim como em outros países que adotaram o socialismo como forma de governo, foi a ascensão de uma classe burocrata dominante que se utilizou do estado para garantir privilégios próprios, bem como no regime capitalista. O socialismo de Marx não previa a existência de classes, por isso então, podemos concluir que o socialismo soviético de maneira alguma pode ser confundido com o socialismo marxista. O aparelho burocrático existente na União Soviética, como em outros países, é apenas a ilustração da continuação do ciclo de revoluções apresentado por Marx, em que a classe dominante passa a ser os membros de um partido considerado como defensor do proletariado.

Considerações Finais

Como podemos observar ao longo deste pequeno texto, o pensamento de Marx está voltado quase por completo para duas de suas principais preocupações. Primeiro, entender o funcionamento dos mecanismos utilizados pela classe dominante capitalista, ou seja, a burguesia, para a conservação de sua permanência no poder; segundo, elaborar uma teoria alternativa de modo que um estado possa funcionar sem a existência de classes e, posteriormente, a sociedade civil possa viver sem a existência do estado. O que Marx conclui é que fatalmente o capitalismo irá sucumbir, dado que o mesmo age de forma a alimentar o seu destruidor.

Ao longo do século XX pudemos perceber que Marx não estava correto por completo, assim como qualquer outro teórico, pois o capitalismo aprendeu a lidar com suas contradições, utilizando até mesmo idéias marxistas, de maneira que o funcionamento da dinâmica capitalista continua até os dias atuais. Entretanto, não podemos deixar de lado as idéias de Marx pois, como sabemos, o capitalismo atravessa um momento de desequilíbrio que pode naturalmente resultar na confirmação de alguns dos ensinamentos de Marx.

Referências bibliográficas:

CHILCOTE, Ronald H. Teorias de política comparativa: a busca de um paradigma reconsiderado. Petrópolis: Vozes, 1998.

GIDDENS, Anthony. "Marx, Weber e o desenvolvimento do capitalismo". In: GERTZ, René E. (org.). Max Weber e Karl Marx. São Paulo: Hucitec, 1994. P. 120-145.

MARX, Karl. Coleção "Os pensadores". Marx. São Paulo: Ed. Nova Cultura, 1999.

_____; ENGELS, Friedrich. O manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1999.

WEFFORT, Francisco C. "Marx: política e revolução". In: _____. Os clássicos da política. Vol. 2. São Paulo: Ed. Ática, 1999. P. 225-278.


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