7 de novembro de 2008

A Rússia e a paz mundial (III)

(Continuação da postagem anterior.)

A RÚSSIA E AS QUESTÕES DE SEGURANÇA NA EUROPA E NO MUNDO

Durante quarenta e cinco anos, o mundo viveu sob um período de tensão. As escolhas sobre os rumos que cada país deveria tomar levavam em consideração, necessariamente, o equilíbrio de poder entre as duas superpotências que emergiram após a Segunda Guerra Mundial, e muitas vezes eram baseadas no medo de uma possível represália por parte de um dos dois países. Ainda, o perigo e o medo de uma guerra nuclear estiveram sempre presentes nestes quarenta e cinco anos, mesmo naqueles países que se consideravam “não-alinhados”. Este período ficou conhecido como Guerra Fria, e foi o período quando o mundo se viu obrigado a escolher entre o capitalismo, representado pelos Estados Unidos, e o comunismo, representado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Para podermos compreender a Rússia atual e os problemas de segurança na Europa e no mundo de hoje, é necessário fazermos uma retrospectiva histórica no que diz respeito ao contexto geopolítico destes quarenta e cinco anos, desde 1945. Falaremos sobre a Guerra Fria, sobre o esfacelamento da União Soviética, sobre os acordos de desarmamento feitos entre a URSS e os EUA e, finalmente, sobre a situação militar atual da Rússia.

Breve histórico da Guerra Fria

A Segunda Guerra Mundial terminou com as explosões das bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão. Até então, os Estados Unidos e a União Soviética eram aliados contra a Alemanha nazista – que foi literalmente dividida em duas, entre os EUA e a URSS –, contra a Itália – que se retirou cedo da guerra – e contra o Japão, que pretendia dominar todo o sudeste asiático, a Oceania e o oceano Pacífico.

Ao se tornar uma potência mundial, a União Soviética tentou – e conseguiu – estabelecer controle em uma área de influência, nos países da Europa oriental. Ao mesmo tempo, alguns países da Europa ocidental, que não estavam conseguindo se recuperar no pós-guerra, ameaçaram tornar-se comunistas, vendo nesse sistema uma saída para seus problemas. Os EUA lançaram, então, o Plano Marshall, que ajudou a Europa ocidental a se reerguer no pós-guerra. A luta por zonas de influência dentro da Europa havia começado.

Em 1948-49, as forças soviéticas fecharam o acesso a Berlim ocidental. Os suprimentos chegavam por aviões que passavam por corredores aéreos previamente estabelecidos. Com o protesto realizado pela Alemanha Ocidental, os EUA passaram a ver este país como um aliado, e não mais como um território ocupado. O confronto entre Leste e Oeste em Berlim foi a primeira grande disputa entre URSS e EUA. Ainda em 1949, a União Soviética explodiu sua primeira bomba atômica, quebrando o monopólio norte-americano. Este fato originou a corrida armamentista entre os dois rivais da Guerra Fria, que nesta época já existia “oficialmente”.

A segunda grande disputa iniciou-se em 1950, com a guerra da Coréia. A União Soviética ajudara os líderes norte-coreanos a invadir a Coréia do Sul e a implantar o comunismo em toda a península. Com o envio de tropas chinesas para a guerra, o conflito só terminou em 1953.

Na União Soviética, os que eram contrários ao regime, ou tinham idéias consideradas perigosas, eram enviados aos gulags – verdadeiros campos de concentração soviéticos. Mas nos Estados Unidos não era diferente. Vários foram presos e considerados suspeitos, chegando a ponto de se assassinar o casal Rosenberg, acusados de fazer espionagem em favor da URSS.

Em 1953, Stalin morre sem deixar um sucessor. Inicia-se a disputa pelo cargo. Ao mesmo tempo, a Alemanha Ocidental consegue entrar na OTAN, com o apoio dos EUA. Dois anos depois, em 1955, é formado o Pacto de Varsóvia, o bloco militar comunista que iria fazer frente à OTAN.

Em 1956, como resposta a manifestações populares, tropas soviéticas invadem Budapeste, a capital da Hungria, enquanto o Ocidente se preocupava com a crise do canal de Suez. Khrushchev reforçava a “Cortina de Ferro” que separava o Ocidente e o Leste.

Dois acontecimentos relacionados com a corrida espacial – que também era alvo de disputa entre as duas superpotências – humilharam os EUA. O primeiro foi o lançamento, em 1957, do primeiro satélite artificial do mundo, o Sputnik – o que provava que, além de satélites, a URSS era capaz de lançar mísseis intercontinentais com ogivas nucleares. O segundo acontecimento foi o envio do primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin, em 1961.

Ainda em 1961, foi construído o muro de Berlim, cujo objetivo era evitar a fuga de berlinenses orientais para o lado capitalista da cidade. O muro tornou-se um símbolo da divisão entre comunismo e capitalismo.

Em 1962, ocorreu um dos maiores – senão o maior – confronto entre os EUA e a URSS. A União Soviética colocara mísseis nucleares na ilha de Cuba, de onde poderiam atingir quase todo o território dos Estados Unidos. Os EUA fizeram um bloqueio à ilha, não permitindo que nenhum navio se aproximasse de Cuba. Após vários dias de tensas negociações, foi apresentada uma proposta: a União Soviética retiraria seus mísseis de Cuba se os Estados Unidos prometessem nunca invadir a ilha, e também retirassem seus mísseis da Turquia. John Kennedy aceitou a proposta de Khrushchev, e o acordo foi confirmado.

Outro revés para os EUA foi a Guerra do Vietnã. Não querendo perder o sul do país para os comunistas, os Estados Unidos enviaram tropas para o país do sudeste asiático, onde fracassaram e se retiraram depois de dez anos.

Com a escalada da corrida armamentista, onde as duas superpotências gastavam juntas, por dia, 50 milhões de dólares em armamentos nucleares, iniciaram-se conversações no sentido de frear os gastos militares. Estas conversações ficaram conhecidas como SALT – sigla em inglês para Conversas para Limitação de Armas Estratégicas. Os mísseis antibalísticos deixariam de ser produzidos, mas a corrida nuclear continuou.

Em 1968, o líder da Tchecoslováquia Alexander Dubcek tentou reformar o socialismo naquele país, implantando o “socialismo com rosto humano”. Sua iniciativa não foi bem recebida pelos líderes soviéticos, e em agosto daquele ano tropas do Pacto de Varsóvia invadiram Praga, retirando Dubcek do poder e reafirmando o controle do Partido Comunista pela força.

No início da década de 70, os líderes das duas superpotências aceitaram limitar as armas nucleares, na política que ficou conhecida como détente. O ponto alto dessa política de diminuição da corrida armamentista foi o projeto espacial realizado em conjunto pelos EUA e pela URSS, chamado de projeto Apollo-Soyuz. Contudo, a détente não avançou mais devido a conflitos diversos no Oriente Médio, na África e na América Latina.

(Continua na próxima postagem.)

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